Fundamentos Inabalaveis

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ee err Bocchina Norman Pr TES Saat A Ts a sldbaliee “0 que é@ a verdade?” (Poncio Pilatos) Hoje a verdade é um conceito impopular. A cultura deste século a tem trocado pelos escorregadios caminhos do relativismo e do pluratismo, nos quais a opiniao pessoal e os sentimentos contam mais que a verdade ere 5 Peace TCC UCC! (CMU LLCO AE LSM OLS Peet CELE N £m Fundamentos inabalaveis, Norman Geisler e Peter Bocchino mostram eer eM MOR Te MeL mC CRM Me Cee CCT) CRE ae) eee CUE RSC Reece oaks RE Uy Oo TSR te ie Ean MLS Mee aT Cee nets A cultura secular declarou querra ao cristianismo. Para fornecer respostas Ree mene ee cee cee RM RC RR Mic eerie Reon acu cma tae ren eT) Pee Cae Mur Se esa Mune aire ere) Pe MuEne ere a eee ites ae ere ses nec eG FeO nC MSC a eee Oe Nee Mn Rte Calne Rocce eee eee Cen a trace eee ee ee te CORR RCo See out ue eC meant Sei ee ueeere eee EG Mar os Sees caret nen ce On emer Norman Geisler é pastor, autor e co-autor de mais de 60 livros e centenas de artigos. Cer Nee SR ee ee CuN SO ae en Pee eee eee Cet eum i fet PACS On ese ere Mise Cag eee er Nar een et enna eee curse Charlotte, na Carolina do Norte, EUA. Peter Bocchino € presidente do Legacy of Truth Ministries, localizado em Atlanta, Geérgia, EUS en See Ca CMe RO eet aes ner Ministries e foi responsdvel por ministrar sobre apologética crista em pafses da Europa, do CO Oe nee Gee asco coms O AUT: Rome oc Reon Categoria: Teologia/ Apologéticay Ciencia e fe Pelo mesmo autor . Eleitos, mas lores (Vida) Enciclopédia de apologética ida) Evie evista (Vida Nova) Obras em co-autoria Introdugio biblica: como a Biblia chegou até nés (Vida) Introdusao a filosofia: uma perspectiva crista (Vida Nova) Predestinagao e livre-arbitrio (Mundo Cristo) Reencarnagto (Mundo Cristio) Amar é sempre certo (Candeia) ©2001, de Norman Geisler ¢ Peter Bocchino ‘Titulo do original * Unshakable foundations, edigéo publicada pela BetHany House PusLsieRs (Minneapolis, Minnesota, rvs) Taos os direitos em lingua portuguesa reservados por Epitora Vipa Rua Jiilio de Castilhos, 280 © Belenzinho cep 3059-000 © Sao Paulo, se Telefax 0 xx 11 6096 6814 wwew.editoravida.com.br PROIBIDA 4 REPRODUGAO POR QUASQUER MEIOS, “SALVO EM BREVES CITAGOES, COM INDICAGAO DA FONTE. ‘Todas as citagies biblicas foram extraidlas da Nova Versio Internacional (sv), ©2001, de Edirora Vida, salvo indicagao em conteéto. Dados Internacionais de Catalogagio na Publicagio (ci) (Camara Brasileira do Livro, st Brasil) Geiser, Nosman L. Fundamentos inabaléveis :resposta aos maiores questionamentos con- tempordneos sobre a fé cristd : clonagem, biodtica, aborto, eutandsia, ‘macroewolugio /Nonman Geisler e Peter Boccino trcusio Heber Carlos de Campos. — So Paulo + Editors Vide, 2003, “Tilo original: Unshakale foundations. Bibliogrfia sax 85-7367-623-x 1. Apologetica 2. Crstianismo — Micelinea 3. Pica cise 4, Pexguneas e respostas 1, Boechino, Pete. Il, Teo 02-6636 Iadice para catlogosistomition 1. Apogee Criatanismo 239 2 Quetbes polémicas: Crinianismo 239 SUMARIO Acrapecimentos Irropucio CON RH BR wWhDr . A r6cica . A veRDADE . As cosmovisoes IL AcieNciA . 0 cosas A oRIGEM DA VIDA ”. A macroevoucio J. PRovETO INTELIGENTE Ate A austica |. Deus & 0 MAL . Jesus & A HISTORIA A oivinpabe De Jesus Cristo A Eich £ A MORAL . Q VERDADEIRO SIGNIFICADO DA VIDA E 0 CEU A VERDADEIRA MISERIA £ 0 INFERNO ‘Apenpice.; RESPOSTAS BASEADAS NOS PRIMEROS PRINCIOS A QUESIOES Entcas Biatioraria 27 53 69 85 mM 145 WW 199 223 245 269 305 333 369 393 401 429 AGRADECIMENTOS Dedicamos este livro com carinho a nossas esposas, Barbara ¢ Therese, que nos rém apoiado com fidelidade ¢ amor no decorrer dos anos. Somos especialmen- o deste trabalho. Registramos nosso reconhecimento especial a Bill e Charlotte Poteet, que te gratos pelo encorajamento delas durante a produ trabalharam na preparacao gramatical inicial do manuscrito para que pudésse- mos envié-lo & editora. Somos também muito agradecidos a Wayne House por gastar tempo fazendo revisdo do capitulo sobre lei e por suas sugestées titeis. ‘Ademais, seriamos remissos se nao agradecéssemos a todos os alunos de apologetica, que durante os anos nos ajudaram com varias sugestées a tornar este livro tanto pratico quanto significativo. Por fim, desejamos expressar nosso apreco a Steve Laube por acreditar nesta obra ea todas as pessoas talentosas da Bethany House Publishers que acompa- nharam este projeto até o final, Em particular, somos agradecidos aos diligen- tes esforgos e as louvaveis habilidades de redacao de Christopher Soderstrom. Acima de tudo, devemos muito a nosso Deus, que nos tem dado a graca de ser capazes de raciocinar a respeito dele mesmo ¢ de sua criagéo. O proprio Deus nos convida a chegar em sua presenga para “refletir juntos” com ele (Is 1.18), e € nossa esperanga que o leitor se ocupe dele ¢ de seu convite gracioso. INTRODUGAO. O universo me rodeia com 0 espago ¢ me absorve como a um tomo; pelo pensamento compreendo 0 mundo —BLAlsE Pascal Em 28 de janeiro de 1986, quase todos nos Estados Unidos observaram pela televisio o langamento do énibus espacial Challenger. Embota os lancamentos de dnibus espaciais jd se tivessem tornando acontecimento rotineiro, esse foi singular, pois entre os sete tripulantes do Challenger estava Christa McAuliffe, uma professora de escola secundaria do estado de New Hampshire. Depois de 73 segundos do langamento, o entusiasmo se transformou em horror, €o mun- do testemunhou o acontecimento mais tragico da histéria da exploragao espa- cial. © Challenger explodiu ¢ deixou em seu rastro uma trilha de fumaga que acompanhou a espaconave até cai no oceano com toda a tripulagao sem vida. ‘A investigagao do acidente revelou que a causa da explosio era muito simples: um defeito num anel que serve de lacte. Apesar de ser um componente sim- ples, o lacre tinha de desempenhar uma fungao especial e critica. Fora projeta- do para isolar 0 combustivel sélido dos gases do foguete que saiam do tanque principal de combustivel. Contudo, seu projeto defeituoso, somado as condi- goes ambientais extremas, afetou-lhe a integridade funcional. Esse lacre defei- tuoso permitiu que gases de alta combustao vazassem através da junta alimentadora de tensio do foguete. Uma vez que esses gases quentes entraram em contato com o tanque de combustivel externo do énibus, a explosao fatal cra iminente. Talvez 0 aspecto mais desconcertante dessa catdstrofe seja que os engenhei- ros da Nass haviam advertido os diretores do controle da missao a respeito do iminente perigo um pouco antes do langamento. Nao obstante a preocupagéo dos engenheiros, manteve-se a deciséo de continuar com o langamento — to- dos os sistemas a postos! Outras questes e pressGes tiveram priotidade sobre as 10 FuNoameNros: INaBaLavels possibilidades de haver um desastre fatal. Afinal o énibus espacial tinha mui- tos sistemas de apoio para garantir a seguranga da tripulagao. Infelizmente, a tripulagao do énibus espacial se colocou nas maos daqueles que tomaram a decisio errada e, por conseguinte, nenhum de scus integtantes sobreviveu. Escrevemos este livro com o intuito de evitar que vocé, leitor, cometa erro semelhante no que diz respeito a sua vida espiritual. A medida que continua a aprender, formal ow informalmente, vocé se encontra em situag&es que podem trazer sétias conseqiiéncias com respeito as decisées que toma acerca do que actedita ser verdadeiro. Professores, colegas, companheiros ¢ outros podem desafid-lo a reavaliar suas convicg6es & luz do que lhe ensinam ou dizem. Por- tanto, nds lhe imploramos: nao deposite sua confianga nas mos de qualquer um! Este livro oferece razdes confidveis para crer que o cristianismo ¢ intelectu- almente perfeito. Como auxilio para demonstrar-lhe por que isso é verdade, vamos nos reportar a Aristételes, que hé muito tempo observou que todo campo do conhecimento comeca com certas verdades, a que ele se referiu como primeiros principios. Os primeiros principios nao so conclusoes obtidas no final de um conjunto de premissas, mas, sim, premissas bésicas, das quais se retiram as conclusées. Sao axiomas, premissas — verdades auto-evidentes. Sao téo obviamente razodveis que nao exigem nem admitem prova direta. Os primeiros principios esto além da prova direta porque sao tidos como verdadeiros com base em sua natureza auto- evidente ¢ inevitavel. Também nao podem ser refutados; qualquer tentativa (em qualquer campo de estudo) resultar apenas em afirmagées auto-anuléveis. Aristételes também explicou que esses primeiros principios foram os funda- mentos inabaldveis sobre os quais todo 0 pensamento e o conhecimento repou- sam. Este livro pretende reafirmar as observagbes de Aristételes c em seguida mostrar que os primeiros principios conduzem tao-somente ao Deus da Biblia. No capitulo 1, o apresentaremos & Légica e ao primeito principio de todo 0 conhecimento: a lei da nao-contradigao. A natureza universal e inevitdvel dessa Jei simples mas profunda leva-nos a questionar-lhe a origem e razdo definitiva. A resposta a essa pergunta € que deve haver alguma Mente suprema que existe como fundamento das leis do pensamento humano. No capitulo 2, examina- remos as nogées populares de agnosticismo, pluralismo e relativismo. A medi- da que analisarmos cada uma & luz da lei da nao-contradicao, mostraremos como sao, em ultima andlise, auto-anulaveis. Em seguida explicaremos por que é razodvel crer que a verdade absoluta existe, definindo a verdade como afirma- Gio, idéia, simbolo ou expresséo que equivale a (corresponde a) realidade. O Iwiropucto 11 capitulo 3 dé uma breve descricao das cosmovisdes ¢ explica como clas afetam as convicgées ¢ a conduta dos individuos. Também incluimos um teste para ava- liar a credibilidade das declaragées da verdade que as varias cosmovisées fazem ec oferecemos algumas sugestdes a respeito de como tratar dessas questées de visio de mundo. No capitulo 4, embarcamos numa viagem pela ciéncia. Nossa meta ¢ obter entendimento bésico dos fundamentos sobre os quais a ciéncia se constrdi, suas limitagdes com respeito ao conhecimento e de como aplicar 0 método cientifico & questao das origens. No capfeulo 5 a cosmologia é usada para discu- tir sobre a natureza ¢ a estructura do universo. A pergunta sobre sua origem — a saber, se necesita ou néo de uma causa — é respondida nesse capitulo. Alega-se que, com base no primeiro prine{pio da ciéncia ¢ o apoio da evidéncia, é mais razodvel crer que o universo € finito, Assim, € necessério concluir que uma causa infinita ¢ eternamente poderosa o trouxe a existéncia. No capitulo 6 explicamos por que é razodvel crer que essa causa infinita e eternamente pode- rosa deve também ser inteligente. Nosso raciocinio se baseia na ciéncia da teoria da informagio, uma vez que cla se relaciona com a origem da vida. O capitulo 7 dedica-se a analisar varios modelos de origens ¢ responder ds questoes sobre macroevolugdo. Apresentam-se raz6es ¢ evidéncias para demonstrar que a macroevolugdo nao é um modelo de origem vidvel. No capitulo 8, mos- tramos por que a macroevolucao teista decepciona por nao fornecer raciocinio cientifico nem evidéncia empirica necessdrios para dar suporte a suas reivindi- cages. Por isso, nos voltamos para a tinica saida légica — 0 modelo do projeto imteligente — ¢ argumentamos em favor de sua credibilidade como 0 modelo mais plausivel de origem. O capitulo 9 trata de Lei e da mudanga da teoria legal norte-americana do entendimento cléssico da lei natural para uma teoria que encontra sua origem na razao humana —a lei positiva. O exame dessa mudanga inclui a identifica- go dos sina estabilidade do sistema de justica criminal, mas também nossos simples direi- is de perigo que em tiltima instancia ameagam nao somente a tos humanos bésicos. O capitulo 10 usa um contexto histérico (Alemanha nazista) para revelar como 0 conceito errado da natureza humana (macroevolucao) ea lei (estabelecida apenas sobre a razdo humana) violam os direitos humanos. Além disso, mostramos como a promotoria argumentou em favor da Justi¢a, em Nuremberg, com base no conhecimento intuitive das “leis superiores” que transcendem os governos. O fundamento dessa lei superior € um Legislador superior — 0 Criador — que concedeu 4 humanidade um valor intrinseco que 12 Funpamenios iagatavers nenhum governo ou pessoa tem o direito de tirar, No final desse capitulo, concluimos que faz sentido crer que vivemos num universo teista. Contudo, se existe um Deus infinitamente poderoso e justo, por que existe o mal? Onde o mal se originou? Deus 0 criou? O capitulo 11 examina as questoes a respeito da natureza de Deus e 0 problema do mal. Identificado o problema do mal e tendo em vista que cremos que a resposta ao problema veio a terra dois mil anos atrés na pessoa de Jesus Cristo, voltamo- nos para a histéria — capitulo 12 —a fim de descobrir a resposta. Contudo, a interpretacao adequada dos fatos histéricos depende da conviccao de que a histéria é conhecivel ¢ que podem ocorrer milagres, Depois de mostrar que a histéria é de fato conhecivel ¢ os milagres sio possiveis num universo tefsta, apresentamos as evidéncias que sustentam a autenticidade dos documentos do Novo Testamento ¢ a confiabilidade de seus autores. Tendo demonstrado que 0 Novo Testamento relata os fatos da vida de Jesus e seus ensinos, passamos para 0 capitulo 13, no qual examinamos suas declarages de sua confiabilidade, especialmente as referentes a sua divindade, e olhamos para as evidéncias que ele ofereceu para provar suas declaragées de ser Deus. As trés linhas de evidén- cia oferecidas sio 1) 0 cumprimento das profecias do Antigo Testamento a seu respeito; 2) sua vida sem pecado e cheia de atos miraculosos; ¢ 3) sua ressurrei- gio dentre os mortos. Se de fato Jesus ¢ Deus, 0 que ele diz sobre o problema da humanidade é verdadeiro. No capitulo 14, voltamos a Jesus ¢ sua andlise da condiggo humana, mas fazemos isso depois de tratar da crenga muito difundida de que a ética ea moral sio puramente subjetivas ¢ meramente questo de sentimentos ou instinto. Apresentamos um resumo de varios argumentos de C. S, Lewis para refutar essas crengas populares. Em seguida, voltamos novamente a atengao para Jesus c ouvimos o que ele tema dizer a respeito de ética, da causa essencial da doenga moral da humanidade, e da cura permanente para essa doenga. A decisio que se toma de aceitar ou rejeitar os ensinos de Jesus acarreta conseqiiéncias tempo- rais ¢ eternas: um destino de bem-aventuranga eterna ou miséria eterna. Cada pessoa deve decidir individualmente se cré ou nao em Jesus. No capitulo 15, examinamos mais de perto as conseqiiéncias mencionadas anteriormente. Nossa discussao centraliza-se naquilo que dé significado supre- mo a vida. Mostramos por que 0 verdadeiro significado nao pode ser encontrado fora do relacionamento amoroso com Deus. Deus nos projetou para funcionar com o combusttvel da prépria pessoa dele, ¢ fora dele nao pode haver nenhum sentido “definitive” — apenas estados temporirios de realizagao superficial. Inirooucio 13 Aos que aceitam a cura de Jesus para a doenga moral da humanidade, aguarda- os um estado eterno de alegria verdadeira no céw. Entretanto, aos que rejeitam Deus, aguarda-os um lugar de verdadeira miséria, que duraré para sempre. A Biblia refere-se a esse estado eterno de miséria como inferno. O capitulo 16 pretende mostrar brevemente por que o inferno faz sentido e que é decorréncia da natureza santa, justa e amorosa de Deus. Além desses capitulos, incluimos um apéndice intitulado “Respostas base- adas nos primeiros princfpios a questdes éticas”. Os tépicos tratados no apén- dice sdo aborto, cutandsia, questdes biomédicas e clonagem humana. E nossa esperanga que suas dtividas ¢ perguntas sejam respondidas em al- gum lugar nas paginas deste livro e que, como conseqiiéncia, vocé possa enten- der melhor por que sua fé repousa sobre findamentos inabaldveis. Também oramos para que esta obra ajude a fomentar em vocé uma intrepidez que nao seja defensiva, para que vocé seja uma testemunha confiante ao compartilhar 0 evangelho de Jesus Cristo. CaPITULO UM A Logica Os fundamentos da ligica devem ser tdo transculturais quanto a matemdtica, & qual os principios da ldgica estao associados, Os principios da ldgica nao sto ocidentais nem orientais, mas universais, —Monrtimer J. ADLER QuE sho PRIMEIROS PRINCIPIOS? Numa série de ensaios chamado “Légica” ou “Organon”, Aristételes estabele- ceu a diferenga entre as formas validas ¢ invalidas de raciocinio humano. Seu objetivo era tornar claros os passos pelos quais um conjunto de conhecimentos deve ser construido logicamente. Aristételes mostrou que cada ciéncia comeca com certas verdades dbvias que ele chamou de primeiros principios, explicando como esses primeiros princfpios constituem o fundamento sobre o qual repou- sa todo conhecimento. Primeiros princfpios sao as verdades fundamentais das quais se deduzem ilagdes ¢ sobre as quais se baseiam as conclusées. Sao auto- evidentes ¢ podem ser concebidos como princfpios tanto subjacentes como diretores dos princ{pios de uma concepcao de mundo. Cosmovisao é semelhante a uma lente intelectual através da qual enxerga-se _o mundo. Se alguém olha através de uma lente vermelha, 0 mundo lhe parece vermelho. Se outro individuo olha através de uma lente azul, 0 mundo lhe parece azul. Portanto, a pergunta a que devemos responder é: “Qual a cor de lente (cosmovisao) correta para ter a visio correta do mundo?”. Antes de desco- brir isso, uma pergunta mais fundamental precisa ser respondida: “H4 somen- te uma lente intelectualmente justificavel através da qual 0 mundo pode ser visto com precisio?”. Em outras palavras: “Hé somente uma visio de mundo verdadeira?”. 16 FUNDAMENTOS INABALAvEIS Se a nossa cosmovisio é tao digna de confianca quanto nossas primeiras suposigdes ¢ as inferéncias Iégicas que deduzimos delas, este deve ser o lugar por onde comegar. Uma vez que, devido a sua natureza fundamental, os pri- meiros princ{pios no podem ser evitados, devemos ser capazes de us4-los como base comum ou pontos de partida com qualquer pessoa razodvel antes de dis- cutir sua cosmovisio. Se empregarmos um processo de raciocinio correto, de- vemos ser capazes de descobrir qual a cosmovisao mais confidvel. Essa abordagem dos “primeiros principios” vai formar a base para a nossa metodologia, que parece ter sido preterida ou esquecida por muitos pensado- res contemporaneos. Mortimer J. Adler observa uma disting4o importante en- tre os pensadores modernos e algumas das grandes mentes filoséficas do passado, especificamente Aristételes e Tomds de Aquino: Em cada caso a corregio de um erro ou 0 conserto de uma deficiéncia na filosofia de Aristételes e de Aquino repousa sobre os principios subjacentes e controladores do pensamento aristotélico ¢ tomista, Na verdade, a desco- berta desses erros ou deficiéncias quase sempre surge de uma atengao espe- cial e conduz a um entendimento mais profundo daqueles principios. Nisso se assenta o que para mim € a diferenga notdvel entre as falhas gue encontrei na filosofia moderna ¢ as da tradigao do pensamento de Aristételes ¢ de Aquino. Os erros ¢ as deficiéncias neste ou naquele pensa- mento do filésofo moderno surgem ou de seu entendimento equivocado ou, 0 que € pior, de sua ignorancia total dos insights e disting6es indispen- sdveis para chegar & verdade — insights e distingdes que foram tio frutuosos na obra de Aristételes ¢ Aquino, mas que os fildsofos modernos os tém ignorado ou entendido erroneamente, ou até desprezado. Ademais, os er- ros ou deficiéncias no pensamento deste ou daquele fildsofo moderno nao podem ser corrigidos apelando a seus proprios ¢ mais importantes princi- pios, como no caso de Aristételes e Aquino. Ao contrdrio, sto normalmente seus principios — seus pontos de partida — que incorporam os pequenos erros no comeco, que, como Aristoteles e Aquino tao bem conheciam, trazem essas sérias consegiténcias no final. ‘A maioria dos ctistdos responde rapidamente a uma cosmovisio oposta criti- cando-a na conelusao de um argumento. Mortimer Adler corretamente observa que, na maioria das vezes, 0s ertos acontecem no comero. Isso significa que 1A second look in the rearview mirror, p. 240 (grifo do autor). A vouca 17 devemos focalizar esses “pontos de partida” empregados pelos fildsofos, profes- sores, autores e céticos para ver se existe algum erro em seus fundamentos (as suposigdes mais basicas). Se Aristételes estava certo quando disse que os primeitos princ{pios formar os fundamentos de todo conhecimento (disciplinas académicas), é essencial que aprendamos a identific Esse nao ¢ 0 tinico método que pode ser empregado para defender e comunicar -los e usd-los para dar suporte a nossa fé em Cristo. o cristianismo, mas 0 consideramos um dos melhores meios de construir pon- tes da verdade para alcancar os que rejeitam nossas convicges. Se conseguir- mos entender bem os primeiros principios, estaremos a caminho de estabelecer a base comum com aqueles que se opdem ao tefsmo cristo. Se esses primeiros principios de pensamento de fato refletem a natureza do Deus da Biblia, como argumentaremos, os questionadores ¢ os ouvintes opositores naufragarao se os rejeitarem. Isto é, eles devem ou negar a validade dos primeiros principios sobre os quais as disciplinas académicas estado baseadas — minando assim todo 0 conheci- mento —, ou concordar com a credibilidade intelectual desses primeiros princtpios e com ela a solidez intelectual do tetsmo. Por QUE COMECAR COM A LOGICA? A tarefa total diante de nés construir uma lente através da qual possamos enxer- gar adequadamente a realidade (definida como “aquilo que é”).? Uma lente inte- Jectual contém muitas hipéteses, mas sua capacidade focal real pode-se encontrar nas leis que guiam o pensamento humano. Todo mundo usa.a légica para pensar a respeito da vida. A realidade de nossa existéncia, portanto, € 0 objeto de foco para essa lente. Todas as pessoas vez, ou outra j4 pararam para pensar no fato de existirem: a existéncia ¢ a razo humanas so dois pressupostos fundamentais que todos os seres humanos tém em comum. Essas duas suposigdes sao inevitdveis. Para Estamos empregando a palavra realidade para significar aquilo que existe independente de nossa mente ¢ exteriormente a ela, Essa visio se chama realismo, No capitulo 2, vamos mostrar como 0 agnosticismo (doutrina segundo a qual ninguém pode saber nada a respeito da realidade) é auto- anulivel e o realismo é inevixivel ‘18 Funoamenz0s inapaudvers negar.a existéncia ¢.a_razao,.o. individuo teria de_usar_arazao_para_pensar_a respeito dessa negacao. Ademais, tem de existir uma pessoa para se ocupar do processo de racioctnio. Portanto, a existéncia ¢ a razdo devem ser o ponto de partida de qualquer pesquisa honesta ¢ imparcial da verdade. Nossas reflexes a respeito de nossa existéncia levantam uma das questdes mais fundamentais da filosofia: “Por que existe algo em vez de absolutamente nada?”.? No momento que comegamos a usar a capacidade focal da razo para ponderar acerca de nossa existéncia, damos inicio a tarefa filosdfica de construir uma lente intelectual. Com isso em mente, 0 ponto mais sensivel por onde comegar ¢ adquirir conhecimento das leis que orientam 0 modo correto de pensar. Se nossos processos de pensamento forem incorretos, quase sempre nos conduzirao a conclusées falsas. Se a raz4o humana é 0 ponto focal de uma lente intelectual, logo ela sé serd boa se estiver limpa ¢ polida. Se nao estiver, corre- se 0 risco de ter uma visao obscurecida da realidade. Quando pensamos sobre o pensar, automaticamente nos ocupamos da disci- plina académica conhecida por Légica. A légica é 0 ramo da filosofia que compre- ende o entendimento das leis que regem nosso proceso intelectual. A légica é a ordem que a razio descobre quando pensa sobre o pensar. Portanto, é a pré- condigao necesséria para todo pensamento, Uma ver. que os individuos de todos os lugares se empenham no ato de pensar, ¢ que todo pensamento se baseia na logica, pode-se seguramente admitir que a légica é uma prética yniversal. Uma vex estabelecida a capacidade focal da razao ¢ livre de qualquer obstrugéo, pode- mos aplicé-la aos fatos da realidade e por em foco uma cosmovisio. tendo em vista que todo conhecimento depende de um ato de pensamento, a légica deve ser 0 ponto de partida para construir nossa lente intelectual. QuAL 0 PRINCIPIO PRIMEIRO DA LOGICA? Podem duas verdades opostas reivindicar-se verdadeiras? Alguns responderiam afirmativamente. A posicao destes se apdia na filosofia do pluralismo. O pluralista insiste, por exemplo, que os ctistdios véem a realidade de um modo e os hindus véem a mesma realidade de outro modo. Conclui daf que ambas as visdes so verdadeiras. Contudo, neste ponto, nao estamos interessados no motivo pot que dois grupos de individuos abragam visées diferentes, mas em se suas con- clusées opostas acerca da realidade podem scr igualmente corretas. Podem tan- 2V. An introduction to metaphysics, capitulo 1, de Martin Heidegger. Avda 19 to a afirmacio crista (0 mal é real) quanto a negagio oposta do hinduismo (0 mal é uma iltsio) estar corretas? Se uma visio do mal é verdadeira, a outra deve necessariamente ser falsa, As duas declaragdes a respeito do mal néo podem ser verdadeiras ¢ as duas nao podem ser falsas. Outro modo de perceber isso ¢ analisar a palavra ‘olendncia. O oposto de toleréncia é intolerancia. Imagine que estejamos dando uma aula de filosofia da religido e deixemos claro que cremos que 0 ctistianismo ¢ correto € 0 hinduismo éctrado. Nao levaré muito tempo para sermos rotulados de intolerantes. Todavia, 0s que se opdem a nés se autoproclamam tolerantes porque créem que todas as religides so verdadeitas, 0 oposto do que ctemos. Quando se reconhece que a posi¢do intolerance é oposta a tolerante, estabelece-se desse modo a credibilidade do primeiro principio de todo conhecimento, a lei da niio-contradigii.. ios reconhecem a natureza auto-evidente Quando os que se opdem aos cris da lei da nio-contradigao, € como colocar no devido lugar a primeira pega da nossa lente intelectual. Estabelece-se um ponto de contato miituo e importan- te para todos os individuos que créem algo a respeito de determinada coisa. Em outras palavras, assumir qualquer viséo antagonica de qualquer questio, seja expressamente ou por pensamento nao verbalizado, é equivalente a sub- meter-se ao poder essa lei da lbgica é verdadeira, porque todas as outras conclusbes a respeito da reali dade necessariamente dependem dela. O estudo formal (académico) da légica nao é para todos, ¢ esté além do 4 validade da lei da nao-contradigao. E forgoso admitir que escopo deste livro delinear as regras das inferéncias légicas (chamadas silogismos) ou envolver-se numa andlise de como evitar as faldcias formais ¢ informais.* Entreranto, é preciso no minimo adquirir algum conhecimento funcional da lei da néo-contradicao. Ela € 0 principio Iégico mais poderoso que se pode aprender. Todo pensamento (seia sobre fisica ou sobre metafisica) é semelbante na medida que é governado por esse principio primeiro fundamental da ldgica —a lei da nao-contradi¢ao. ‘A LEI DA NKO-CONTRADICAO € INEVITAVEL? A lei da nao-contradigao é auto-evidente e inevitavel. Além disso, deve ser em- pregada em qualquer tentativa de nega-la. Deve ser admitida como verdadeira ‘Para saber mais sobre as leis da Idgica, entre clas as faldcias formais informais, v. Come ler us reason: an inttoduction to logical thinking, de N. L. Geisler e R. M. Brooks 20 FUNDAMENTOS iNABALAVEIS por qualquer um que queira pensar ou dizer algo significativo.E necesséria para fazer qualquer espécie de distingdo, afirmago ou negacio. Por exemplo, se alguém dissesse: “Eu nego a lei da ndo-contradicao”, seria oposto a dizer: “Eu afirmo a lei da nao-contradi¢o”. No proprio ato de negar a lei da nao-contra- digéo, o individuo precisa utilizé-la. A afirmagao: “Voces, cristdos, séo intole- rantes porque nao aceitam todas as religiGes como verdadeitas!”. é 0 oposto de ser tolerante e accitar como verdadeiras todas as reivindicag&es de verdade reli- giosal (Daqui por diante abreviaremos a expresséo “lei da ndo-contradigéo” com as iniciais LNC) ALNC € tao poderosa que nao podemos evitd-la nem nos esconder dela. Seu alcance focal intuitivo foi fortemente atado aos processos intelectuais de todos os seres humanos. Se alguém dissesse: “Nao existe essa coisa chamada verdade, © a INC nao tem sentido”, esse alguém teria feito duas coisas. Primeiro, teria assumido que sua posigao é verdadcira e posta a falsa, e desse modo aplica a LNC (0 que, obviamente, indica que a LNC faz sentido, porque sua posigao supostamente tem sentido). Segundo, teria violado a LNC afirmando que néo existe essa coisa chamada verdade, enquanto, a0 mesmo tempo € no mesmo sen- tido, insistisse que hd essa coisa chamada verdade — a verdade de sua prépria posigao. Fazendo assim, ela automaticamente valida a LNC. Até agora fomos expostos a trés convicgbes basicas que devem ser pressupos- tas como verdadeiras para cada cosmovisao. A primeira ¢ 0 fato da realidade: ela é inegavel. A segunda é que todo individuo que pensa acerca da realidade ime- diatamente supée que a razdo aplica-se a realidade. A terceira é que as duas primeiras necessariamente dependem da mais fundamental verdade auto-evi- dente, a validade da Lc. Visto que a 1NC é 0 ponto focal da lente intelectual em construgao, a confiabilidade dessa lente fica dependente da clareza ¢ integridade de cada com- ponente acrescido dai por diante. Conseqiientemente, antes de continuar, é pre- ciso responder a algumas perguntas sobre a relagao entre a légica ea realidade, ¢ sobre a natureza universal da Idgica. Tudo o que concluimos e tudo que vamos concluir daqui para frente depende das respostas a essas perguntas. E SE TUDO NAO FOR NADA ALEM DE ILUSAO? Se tudo fosse ilustio, a busca da verdade seria uma tarefa sem sentido. Vamos comegar respondendo a essa pergunta, esclarecendo 0 significado dos termos realidade e ilusio. As palavras que usamos ¢ recebemos de outras pessoas com Avoca 21 quem dialogamos devem ser entendidas a fim de haver boa comunicagao. Quan- do atribufmos palavras (simbolos) para corresponder a certos aspectos da reali- dade (referentes), estamos aplicando outra lei da légica chamada lei da identidade (doravante, 110). Esta lei afirma que uma coisa € 0 que afirmamos que & 4 é a. O principio cortelato, a lei do terceito exclu {do (:1F), declara que ou é 4, ou ndo-A (j mais as duas coisas). Todo raciocinio valido repousa sobre esses principio: absolutos ¢ sem eles nao seria possivel o raciocinio. Os simbolos ou as palavras po- dem ser préprios de uma lingua ou cultu- ra especifica, mas desde que se referem & mesma realidade, o significado pode ser, ¢ é, universal. As declaragées universais sao traduzidas em todas as linguas por declaracées universais. Portanto, as leis fundamentais da légica séo vélida universalmente, e, quan- do empregadas devidamente, LN, ETE, € LID agem como as engrenagens ldgi- cas principais que formam a cadeia poderosa de transmissio do processo de raciocinio que produz o modo de pensar correto. Mais adiante neste volume, Eles sao veremos como essas duas leis aparentemente simples podem ser usadas para nos auxiliar na defesa de nossas convicgées dos ataques das mais apaixonadas objegies ao cristianismo. Por enquanto, basta observar como a LID pode ser aplicada para determinar se a realidade existe ou se ela ¢ ilusio. Por todo este capitulo empregamos as palavras existéncia e realidade como sindnimos porque “ser real” é existir ¢ “existir” é ser real. A palavra realidade denota aquilo que existe e manifesta certos atributos (quer pensemos a respeito _desses atributos ou nao). A realidade 4, independentemente do nosso conheci- mento dela, Por exemplo, a gravidade existe, ela ¢ parte da realidade. Mesmo se Sir Isaac Newton jamais tivesse definido a gravidade e nao tivéssemos nenhum, de existir. Quando nos esque- cemos da realidade da gravidade, podemos ser abruptamente lembrados dela se tropegamos num degrau ou escorregamos numa casca de banana. A realida- conhecimento da existéncia dela, ela nao cessari: de, do mesmo modo que a gravidade, € algo que existe no importa 0 que pensamos: a realidade é independente de nossa mente. Podemos também demonstrar que a realidade existe analisando a palavra ‘ilusto, Define-se ilusio como percepsito enganosa da realidade. Quando se diz 22 Funoamentos inaBacévers que algo ¢ ilusao, quer-se dizer que a ilusao falseia o que é real. Contudo, se a realidade objetiva nao existisse para fornecer 0 contraste, nao haveria modo algum de saber coisa alguma a respeito da ilusao. Em outras palavras, para saber se estamos sonhando, devemos ter alguma idéia do que significa estar acordado, sé assim podemos comparar os dois estados. Do mesmo modo, s6 se sabe o que € ilusao porque se tem alguma idéia do que significa ser real, Se tudo fosse de fato ilusio, nunca poderiamos saber nada a respeito dela. A ilusdo absoluta é impossivell Portanto, é légico concluir que ¢ iluséo crer que a realida- de ¢ ilusao. £ SE A LOGICA NAO SE APLICA A REALIDADE? Ja definimos ldgica como a ordem que a razao descobre quando se pensa sobre 0 pensar e descobrimos que a Iégica é um pré-requisito necessdrio a todo pen- samento. Quando refletimos sobre a natureza da realidade e em seguida faze- mos declaragbes de verdade a respeito do que descobrimos, noss s declaragées de verdade serio ldgicas (com sentido) ou ildgicas (sem sentido). Por isso, a primeira pergunta a fazer ao individuo que acredita que a légica nao se aplica & realidade é: “O que vocé supée ser verdadeiro a respeito da légica ¢ da realida- de?”. A primeira suposicao que esse individuo deve fazer para responder a essa pergunta é que é uma perpunta Idgica acerca da realidade e, portanto, digna de uma resposta Idgica. Do mesmo modo, presume-se que a contra-pergunta desse individuo “E se a légica nao se aplica & realidade?” € uma pergunta ldgica acerca do que existe (tealidade). Portanto, o individuo admite que a légica se aplica a realidade, Mas, nesse caso, a pergunta contém uma contradi¢ao implicita (viola a LNC) ¢, conseqiientemente, nao tem sentido. Conseqiientemente, se essa nao fosse uma pergunta légica a respeito da realidade, nao seria necessério respondé-la. Se esse individuo realmente no acredita que a légica se aplica realidade — que tudo da realidade nao faz sentido —, entao nada deve fazer sentido, até sua propria pergunta. Uma ver. que todo individuo usa a légica para pensar a respeito da realida- de, todos automaticamente admitem que a légica se aplica & realidade. Quan- do alguém nega essa verdade, também confirma a verdade da LNC no proceso da negagio. Por conseguinte, sua negagao passa a ser auto-anuldvel ¢ voltamos hovamente ao ponto em que comecamos: a légica é inevitdvel. C. S. Lewis ex- plicou a total inutilidade de tentar dar conta da realidade sem 0 uso da razao quando disse: A vocica «23 Uma teoria que explicasse tudo mais no universo inteiro, mas que tor- nasse impossivel crer que nosso pensamento era valido, seria absoluta- mente indcua. Pois essa mesma teoria teria sido alcangada através do raciocinio, ¢ se este fosse invdlido ela seria entio destrufda. Destruiria as suas préprias credenciais. Tratar-se-ia de um argumento provando que argumento algum é sdlido — uma prova de que nio existem provas — 0 que é tolice.’ E SE FOSSE EMPREGADA A LOGICA ORIENTAL? ‘Alguns dizem que hé outra espécie de légica, a légica oriental, que sustenta a idéia de que a realidade, no seu amago, abriga contradigées, Entretanto, tentar impor limitagoes a qualquer lei universal também é auto-anuldvel. Imagine alguém que acreditasse numa concepgdo oriental da gravidade. Para esse indi- viduo, a gravidade deve submeter-se a urna mudanga radical porque é vista & luz da cultura oriental. Por mais absurda que essa idéia possa parecer, o mesmo éverdade para qualquer individuo que acreditasse que a logica pode submeter- se a alguma mudanga radical em decorréncia de sua localizagao geografica. Dizer que a logica se altera de acordo com a posigdo do observador é subverter o sentido da palavra /égica. A légica oriental afirma que a realidade pode ser légica ¢ ilégica. Mas se alguma coisa ¢ Idgica ¢ também ilégica, é uma contradi- gio ¢ nao faz sentido algum. Logo, de acordo com a légica oriental, tudo em Ultima andlise ¢ sem sentido. Todavia, se em ultima andlise, tudo fosse sem sen- tido, © mesmo aconteceria com a distingao entre a égica ocidental ¢ a légica oriental. Se néo houvesse base nenhuma para julgar entre o pensamento correto 0 incorreto, nao haveria modo nenhum de condluir que a légica oriental é mais precisa que a légica ocidental. Além disso, nao haveria modo nenhum de con- cluir que a visio oriental da realidade é mais acurada do que a visio ocidental da realidade. O tinico modo de fazer essa asserco seria admitir que a realidade nao aceita contradigGes ¢ existe independentemente de nossas opinides. Mas, se isso éverdadeiro, entao as leis da lgica, em particular a LNG, devem ser universais, Portanto, nao existe isso de Iégica oriental ¢ légica ocidental. Nao importa onde o processo intelectual ocorra nem em que cultura esteja envolvido — a ldgica é a mesma. Mortirner J. Adler sublinha essa universalidade: “Os funda- mentos da légica devem ser téo uansculturais quanto a matemética, com a SMilagres, p. 15 24 FUNDAMENTOS INABALAVEIS qual os principios da légica esto associados. Os princ{pios da légica nao séo ocidentais nem orientais, mas universais”.° Qualquer pessoa que visita 0 extremo oriente observa que 0s computadores operam do mesmo modo que no ocidente. A ldgica empregada em regides como a [India ¢ idéntica a légica usada nos Estados Unidos, porque a légica é de cardter universal, ¢ suas leis so universais. Quando pensamos sobre a natureza da realidade, nos ocupamos do que se chama de metafisica (0 que est além do fisico) A metafisica trata da existéncia e da ndo-existéncia de realidades nao- fisicas. Quando aplicada & metafisica, a légica declara que ndo podem coexistir contradigées na realidade. Por exemplo, ov Deus existe, 0 Deus nao existe: os dois fatos ndo podem ser verdadeiros e ambos nao podem ser falsos (ire). A visio oriental da realidade, que é no geral a visio pante(sta,’ accita a forma metafisica da LNC. Se assim nao fosse, os pantefstas poderiam ser atefstas. En- tretanto, os pantefstas no sao atefstas porque créem que ou existe Deus (Brahman), ow nao existe nenhum Ser supremo, mas nao créem em ambas as declaragées. Acreditam que ow os ateus, ou os panteistas esto certos, mas nao os dois. Ou o universo é tudo que existe, uma realidade material ¢ nada mais (atefsmo), ox existe um Ser supremo (Brahman), que é 0 universo. A matéria é on ilusio (no caso do panteismo), 01 € real (no caso do ateismo), mas nao os dois.’ Os habitantes do oriente usam o mesmo tipo de légica que os habitan- tes do ocidente: a légica humana. Anteriormente observamos que as leis da ldgica sdo necessdrias para fazer qualquer espécie de distingao, afirmacao ou negagao. O proprio ato de fazer disting&o entre o pensamento oriental e o ocidental depende dessa Ici univer- sal. Dizer que hd uma concepgao oriental oposta concepgao ocidental depen- de da validade e da natureza universal dessa lei da légica. E inequivoco: temos de concluir que a LNC é to universal quanto o préprio ato de pensar. PODEM-SE APLICAR AS LEIS DA LOGICA COMO TESTE DA VERDADE? Sir Alexander Pope observou corretamente que pouco conhecimento € coisa perigosa! Esse cliché pode ser verdadeiro em nosso caso se deixarmos de indicar Truth in religion: the plurality of religions and the unity of truth, p. 36. 7O panteismo € explicado no capftulo 3. Basicamente, 0 pantetsta cré que Deus permeia todas as coisas e é encontrado em todas elas. Deus é 0 mundo, ¢ 0 mundo é Deus. *Como se disse anteriormente, isso se chama em linguagem técnica de ki do rerceivo excluido (re), que é uma lei irma da LNc. A tocica 25 a limitagao principal da légica. Quando usamos a légica como 0 ponto focal de nossa lente intelectual, devemos ser muito cuidadosos para reconhecer que sua eficdcia se limita a encontrar erro somente. A fungao da légica (i.e., a funcao da LNC) é corrigir o raciocinio falho, ou a argumentagao sem fundamento e, por- tanto, é um teste negativo da verdade. Essa é uma caracteristica muito impor- tante: a légica em si jamais nos ajudard a encontrar a verdade, mas somente nos ajudard a detectar 0 erro. O que é verdadeiro deve ser logico, mas 0 que é légico nao énecessariamente verdadeiro. A declaracao “dois mais dois ¢ igual a quatro” é légica. Do mesmo modo, a afirmagao “dois duendes mais dois duendes sao quatro duendes” também & légica. Ambas as afirmagées sAo Idgicas, contudo, a segunda afirmagdo nao significa que de fato existem duendes. Seria preciso testar para verificar se ha alguma evidéncia que dé apoio 4 declaragdo de que duendes sdo reais. Conse- qiientemente, o que € real ou verdadeiro deve ser légico, mas o que é légico nao é necessariamente real ou verdadeiro. Sea légica por si sé apenas detecta o erro, como se pode descobrir a verda- de? Este livro foi planejado de modo a responder a essa pergunta com base no conhecimento acumulado e a aplicagao dos primeiros principios fundamentais dos diversos campos do saber (disciplinas académicas) da forma que sao aplica- dos a realidade. Em outras palavras, veremos que uma vez. que esses primeiros principios se juntem adequadamente, como pegas de um quebra-cabega, eles thos mostrardo qual é a cosmovisio mais razodvel ou verdadeira. Depois é qucs- tao de encontrar respostas &s perguntas que fazem sentido dentro dos parimetros dessa cosmovisio ¢ se adaptam da maneira mais coerente com aquilo que co- nhecemos mediante noss: 0 cu- experiéncias da vida. Entretanto, a aplic mulativa dos primeiros principios & realidade nao deve violar os princtpios previamente estabelecidos, Por exemplo, quando identificamos o primeiro prin- cipio da ciéncia ¢ tiramos conclusées dele, ele nao deve violar os primeiros principios da ldgica ou da filosofia. 'Irataremos com mais detalhes desse teste da verdade nos capitulos que se segue CapfTULO DOIS A VERDADE Que é a verdade? —PILatos Que é A veroave? Segunda Ari “tural que todos tém de conhecer a verdade. Todavia, 0 dese} Jes, a filosofia comeca com 0 desejo ni jo de conhecer a verdade é uma coisa, mas encontrar averdade é outra completamente diferente. As aparénci- as podem ser enganosas, muitas coisas parecem verda- deiras, mas na realidade nao sao, A primeira vista, uma haste de ago imersa numa vasilha de 4gua parece torta, mas nfo € torta. Ora, se € tio facil ter uma percepgio errada da verdadeira natureza das coisas fisicas, 0 que dizer da verdade acerca das coisas metafisicas? ‘A metafisica se preocupa com questdes como, por exemplo, a existéncia e a natureza de Deus. Mas como esperar encontrar respostas verdadeiras a pergun- tas referentes a verdade sobre a existéncia e a natureza da realidade se 0s fatos fisicos, tangfveis, podem causar tanto engano? Antes de comecar a responder a essa pergunta, é preciso responder as questdes mais fundamentais a respeito da capacidade de conhecer a realidade ¢ a natureza da verdade. Se se busca a verdade com seriedade, deve-se aprender a aplicar corretamen- tea filosofia & vida. Podemos nao nos sentir & vontade com 0 termo “filosofia’, mas usamos filosofia o tempo todo. Quando pensamos a respeito da vida, usa- 28 — FUNDAMENTOS INABALAVEIS mos a légica, ¢ a légica € um ramo da filosofia. Nao se trata de usar a filosofia, mas de usé-I la correta ou incorretamente. Alguns acham que a filosofia se reser- va para as pessoas com alto nivel de escolaridade, mas essa idéia nao é verdadei- ra. Mesmo os que instrugio muito limitada séo capazes de acompanhar um raciocinio. C. S. Lewis nos lembra: Os individuos sem escolaridade nao sio pessoas irracionais. Descobri que cles vao agitentar ¢ podem acompanhar muito de uma argumentagao prolon- gada se vocé caminhar devagar, Em geral, na verdade, a novidade desse procedimento (pois raramente se encontraram nessa circunstancia antes) délhes prazer! Lewis compartilhava da conviccao dos antigos gregos de que a filosofia, por definicao, tem de ser prética e significativa, Entendiam os helénicos que a filosofia era téo til para 0 arteséo inculto da época quanto para o estudioso metafisico. Logo, nao precisamos nos desviar, independentemente da histdria escolar do individuo, a filosofia pode vir a ser uma ferramenta muito impor- “amor que se tem por um amigo. O verdadeiro fildsofo ama a sabedoria como se fosse uma amiga muito intima. Os gregos combinaram essas duas palavras com a intengéo de designar um tipo caracteristico de exercicio mental, o exercicio da razao na busca da verdade. Pode-se também compreender a filosofia como uma inquirigao e andlise das realidades fundamentais de nossa existéncia, entre ‘estas as proprias palavras e os conceitos que constituem a linguagem cotidiana. Alids, Filosofia ¢ 0 empenho de empreender um exame racional e consisten- te das reivindicagées de veracidade de qualquer sistema de crenga. Todavia, se a verdade nao existe, por que se importar com a filosofia? Pense em todos os filésofos e livros de filosofia do mundo hoje. Se a disciplina académica da filo- sofia é esvaziada da verdade, entao os fildsofos estao numa busca va. Deve haver algo gravemente errado com os fildsofos que escrevem ¢ falam a respeito do amor por um amigo chegado que nao existe! A primeira e principal hipdtese que deve fazer todo aquele que procura respostas é: podem ser encontradas respostas verdadeiras. Alguns negam que existem respostas verdadeiras. O problema com essa concep¢ao é que ela se 'God in the dock, p. 99. A veroave 29 presume verdadeira; se fosse, seria uma premissa auto-anulével. Se um indivi- duo acredita que todas as visGes da tealidade sio falsas, entio sua visio também deve ser falsa, porque se fosse verdadeira, todas as vis6es nao seriam falsas. Negar a existéncia da verdade é confirmar-the a existencia —a verdade éinevitdvel Portanto, a declaracao de que se podem fazer declaragdes verdadeiras a respeito da realidade é uma declaracéo justifi Sea verdade ¢ a realidade sdo inevitdveis, entéo de que modo elas se relaci- vel racionalmente. onam? Qual é a ligagdo entre a natureza da verdade ¢ a natureza da realidade? No capitulo 1, usamos a lei da gravidade para ilustrar uma verdade. Dissemos que mesmo se Newton nao tivesse descrito a gravidade, a realidad da existén- cia dessa lei nao se alteraria, isto é, a existéncia da gravidade nao depende de nosso conhecimento dela. Se a realidade existe independentemente de nosso conhecimento, entao a verdade deve estar ligada ao processo de investigagao e descoberta de um atributo da realidade, Quando investigamos e descobrimos algum aspecto da realidade e fazemos afirmagGes precisas a respeito dele, fala- mos a verdade. De modo contra jo, quando fazemos declaragdes que suposta- mente correspondem a realidade, mas nao correspondem, nao falamos a verdade. O que é verdade? Por definicao, a verdade é a expressio, 0 simbolo ou a declaragdo que corresponde ao seu objeto ou referente (ise., aquele ao qual se refere, seja um conceito abstrato ou uma coisa concreta). Quando a afirmagao ou expressio diz respeito a realidade, ela deve corresponder a realidade para ser verdadeira. Nao obstante, hé muitas declaragdes e concepgoes da realidade; por que deveriam os cristaos crer que tém a tinica opinido correta? As pessoas nao deveriam interpretar a realidade por si mesmas ¢ pessoalmente decidir o que é verdadciro individualmente? No que diz respeito a religido, a verdade nao € questdo de preferéncia pessoal e portanto relativa? A VERDADE & RELATIVA? A visio relativa da verdade ficou profundamente enraizada na mentes ¢ no cora- sao das pessoas do nosso tempo, principalmente nos cfrculos académicos. O pensamento relativista nos influenciou tanto que agora se considera antiintelectual crer na verdade absoluta. A maioria dos educadores e estudantes considera a verdade obsoleta, nao absoluta. Allan Bloom, autor de um dos livros mais con- vincentes que retratam a deterioragao da educagao superior, disse: Hé uma coisa de que um professor pode estar absolutamente certo: quase todo aluno que ingressa na universidade acredica, ou diz que acredita, que a 30 Se essa anilise ¢ correta, cremos que é, como podemos defender a vis FUNDAMENTOS INABALAVEIS verdade € relativa. Quando essa conviccéo € posta a prova, pode-se contar com a reagao dos alunos: nao vao compreender. © fato de alguém conside- rar essa proposigao nao auto-evidente o deixa perplexo, como se questionas- se que 242 =4, Isso sao coisas de que nao se fala. Os contextos ¢ experiéncias sociais dos alunos sio os mais variados que 0s Estados Unidos podem oferecer. Uns so religiosos, uns ateus; uns sio de esquerda, outros, de direita; uns pretendem ser cientistas, outros, humanistas ou profissionais, ou ainda homens de negécios; alguns sio pobres, outros ricos, Sao uniformes apenas no relativismo e na fidelidade & igualdade. E ambos se relacionam com a intengao moral. A relatividade da verdade nao é uma reflexdo tedrica, mas um postulado moral, a condigéo de uma socieda- de livre, ou assim a enxergam. Todos eles foram equipados bem cedo com essa estrutura, que € 0 substituto moderno para os direitos nacurais inaliendveis que cram a base norte-americana tradicional para uma sociedade livre. Que isso € uma questo moral para os estudantes revela-se pelo cardter da respos- ta deles quando desafiados: uma combinagio de descrenga e indignacio: “Voces so absolutistas?” — a tinica alternativa que eles conhecem, pronun- ciada no mesmo tom que “Vocés sio monarquistas?” ou “Vocés acreditam em bruxas?” [...] O relati virtude, a que toda educagao primédria dedicou-se a inculcar por mais de ismo € necessério para a abertura; ¢ isso é uma virtude, a tinica cingiienta anos [...] O crente verdadeiro € 0 perigo real. O estudo da histéria ¢ da culeura ensina que todo © mundo estava louco no passado; os homens sempre pensaram que estavam certos, ¢ isso levou a guerras, perseguicdes, escraviddo, xenofobia, ra- cismo, ¢ chauvinismo. A questio nfo € corrigir os erros ¢ ser realmente certo. Pelo contritio, é no pensar de modo nenhum que se esté certo. Os alunos, naturalmente, néo podem defender a opiniao deles. algo em que foram doutrinados. O melhor que conseguem fazer € indicar todas as opinides e culturas que existiram e existem. Que direito, perguntam, tenho eu ou qualquer outro de dizer que um individuo € melhor que os outros? [...] © propésito da formacio escolar deles nao € torné-los letrados, mas muni-los de uma virtude moral — a abertura? 0 cris da credibilidade da verdade absoluta? Para piorar as coisas, alguns professores The closing of the American mind, p. 25-6. Publicado em portugués com o titulo O declinio da cultura ocidental: da crise da universidade a crise da sociedade. A veroane 3] estao determinados a minar as convicg6es rcligiosas dos alunos. Certo professor disse & sua classe: Nossa ética se baseia na crenga antiga de que hd forcas sobrenaturais que operam no mundo, que essas forcas sobrenaturais fornecem a base da ética, € temos responsabilidade moral baseada no livre-arbierio, Tudo isso é falso. E mesmo aqueles que acham que é verdadeiro devem reconhecer que nio hé mais consenso sobre essas crengas [...] Digo aos meus alunos religiosos para olharem para os colegas que estio sentados em cada lado deles na sala de aula [...] A probabilidade ¢ de que pelo menos um deles nao compartilhe da crenga de que Deus proporciona o fundamento definitivo para a ética, Nao ha volta para um mundo em que nossa ética se baseie numa revelagéo daqu lo que Deus exige de nds. A convicgao do cristéo na verdade absoluta e no Deus da Biblia normalmente no € tolerada nos cfrculos intelectuais seculares. Em geral hé uma forte presso dos colegas, professores ¢ amigos incrédulos para fazer os cristios abandonarem suas convicgdes ¢ aceitar a iddia de que a estreiteza do pensamento deles é a mesma mentalidade que em tiltima andlise causa imitagdes grotescas das cruza das medievais e de toda espécie de perseguicées. Para entender melhor com que se parece esse tipo de ambiente, considere 0 seguinte rotciro imagindrio. A VERDADE ABSOLUTA E INTOLERANTE? Imagine que vocé é um aluno universitério e é sua primeira semana no campus. Geralmente, esse é um periodo de novas experiéncias e de fazer novas amizades. Hoje é seu segundo dia de aula ¢ vocé esté esperando 0 professor aparecer na classe. Célculo ¢ dificil, mas vocé sabe que se sairé bem estudando muito. Litera- tura parece algo divertido, j4 que o professor disse que a maior parte do curso consiste em resenhas criticas dos livros de sua escolha. Mas a aula de que voce vai participar agora, esperada com muita ansiedade de sua parte, pois nao imagina 0 que vai ouvir. Vocé nao tem muita seguranga em introdugao a filosofia. Nao sabe 6 que vai ser dito ¢ como voce vai reagir. Por isso conforta-se com a idéia de que uma aula de filosofia numa instituigao altamente reconhecida como essa Ihe vai oferecer orientacao sélida no que diz respeito a encontrar respostas as questdes finais. Bem, voce saberd logo, porque o professor esté entrando na classe. °G. Liles, citando 0 bidlogo da Universidade Cornell, William Provine, no artigo The faith of an atheist, 170, margo/1994, p. 61. 32 FUNDANENIOS INABALAVEIS — Oi, pessoal, eu sou a professora Leslie Stone e quero dar-thes as boas- vindas 4 aula de filosofia. Gostaria de usar o tempo de hoje para nos conhecermos uns aos outros. Por isso, por favor, pensem em seus conceitos sobre verdade e se preparem para compartilhé-los com o resto da sala. Vocés sao livres para dizer no que créem acerca de Deus, do universo, do bem e do mal, ou qualquer outta coisa que acham pode ajudar-nos a conhecer suas convicgées religiosas pessoais. ‘Tudo bem, ¢ agora? Seu medo era que algo assim ocorresse! Ouca seus cole- gas de classe — ninguém disse nenhuma palavra a respeito da Biblia nem de Jesus, ja é quase a sua vez. Bem, a professora Stone disse para vocé se sentir a vontade para compartilhar 0 que vocé cré. Apronte-se, é sua ver! — Meu nome ¢ John Tate, ¢ sou do Texas. Cresci num lar religioso, com pais muito carinhosos que me ensinaram a crer na Biblia como a Palavra de Deus. Creio que Deus criou 0 universo, como esté escrito no livro de Génesis, e que ele também criou Adio e Eva. Creio que Adio ¢ Eva desobedeceram a Deus ¢ todo ser humano que nasceu desse momento em diante herdou a natu- reza pecaminosa. Portanto, todos nds nascemos maus € temos inclinagéo natu- ral para o pecado, o que éa noticia ruim. E ruim porque, conforme as Escrituras, cada todos estéo condenados ao inferno. Contudo, a noticia boa é que Deus enviou seu Filho, Jesus, para nos salvar da punicao eterna. Jesus morteu pelos nossos pecados ¢ tornou posstvel nosso ingresso no céu. Jesus deixou bem claro que ele € 0 tinico caminho para Deus. E, no foi tao ruim assim. A professora Stone agradeceu e passou direto para © préximo aluno. Isso no vai ser tio desagradavel quanto vocé imaginava. Restam apenas alguns alunos, ¢ talvez voce seja capaz de perguntar 4 professora Stone se pode compartilhar seu testemunho pessoal... Bem, esse foi o tiltimo aluno, e a professora Stone ainda tem algum tempo de aula, essa poderia ser a sua oportunidade. Espere, a professora Stone esté se preparando para dizer alguma coisa. — Muito bem, pessoal, agora que ouvimos 0 que cada um cré, eu gostaria que leyantassem as méos em resposta 4 minha proxima pergunta. Tendo em vista que o que é verdadeiro para uma pessoa pode nao ser verdadeiro para outra, quantos de -vocés acham que devemos ser tolerantes com as convicgées religiosas uns dos outros? Em outras palavras, quantos acreditam que toda verdade religiosa € pessoal ¢, portanto, relativa? Oh, nao! E agora? Todas as mios esto levantadas na sala, e vocé é 0 nico que ndo concordou. A professora Stone esté olhando diretamente para vocé. O que voce vai dizer? A veroane 33 —Tate. Sim, professora Stone. — Tate, eu nao 0 vi levantar a mao. Como € que todo mundo aqui reconhe- cea verdade do que eu disse, menos voce? — Eu nio sei, professora Stone. A tinica coisa que sei é que todos nés nao podemos estar certos. Creio que devemos respeitar uns aos outros, mas como podem todas as nossas respostas ser igualmente verdadeiras? — Bem, sr. Tate, bem-vindo ao curso superior ¢ a minha aula. Deixe-me gastar alguns minutos para explicar por que toda verdade religiosa é relativa. — Hi uma antiga pardbola a respeito de seis hindus cegos que tocavam um elefante. Essa parébola pode ajudé-lo a compreender a questo. Um cego tocou lado do corpo do elefante ¢ disse que era um muro, Outro cego tocou a ore- ites Iha do elefante ¢ disse que era uma grande folha de Arvore. Outro segu- rou uma das pernas do clefante e pen- sou que fosse 0 tronco de uma arvore. Outro ainda segurou a tromba do ele- fante ¢ disse que era uma cobra. Ou- tro cego tocou uma das presas de Seis homens a Muro Corda marfim e pensou que se tratava de uma langa. Finalmente, outro cego tomou a cauda do elefante nas maos ¢ julgou estar segurando uma corda. Todos os cegos estavam tocando a mesma realidade, mas compreendiam-na de maneiras diferentes. Eles todos tinham o direito de interpretar 0 que tocaram de acordo com 0 seu modo pessoal, mas 0 objeto tocado era o mesmo elefante. — Veja, st. Tate, uma vez que tod: existir além de nosso mundo fisico, devemos interpretar essa realidade a nossa prépria maneira. Do mesmo modo que a parabola ilustra, as diferentes religi- Ges tém diferentes interpretages da realidade, mas a realidade é parece ser uma coisa para o budista e outra para o muculmano. O cristéo a vé de um modo, e o hindu de outro, e assim por diante. A realidade ¢ uma, mas as maneiras de enxergé-la so muitas. H4 muitos caminhos que o podem levar ao topo de uma montanha. — Semelhantemente, vocé acabou de ouvir os seus colegas de classe compartilha- rem suas opinides pessoais sobre a realidade tiltima, cada um certo de acordo com os Cobra Tronco de arvore somos cegos para a realidade que pode mesma. Ela 34> FUnoAMENTOS INABALAVEIS préprios olhos. Portanto, devemos aceitar a opiniao de cada um ¢ ser tolerantes com todos. Jesus nao disse: “Ama o préximo como a ti mesmo”? Ollhe ao redor, Tate. Estes so os seus colegas de classe. Vocé quer amé-los, ou quer condené-los ao inferno por cau- sade sua crenga na verdade ab- soluta? Vocé precisa aprender que ha édio bastante no mun- do e que o tinico modo de viver em paz é amar, tolerar e respei- tar as convicgées religiosas dos outros. Voce deve entender que be pica Crist}dnismo Sees, as ideias deles sio tao verdadei- ras para cles quanto a suaé para voce, Eles enxergam a verdade no que acabei de dizer e, por isso ergueram a mao. — Espero que agora vocé esteja pronto para concordar com o restante dos companheiros de classe, sr. Tate, porque nao queremos ser intolerantes religio- sos. Ou queremos? Esta escola defende o pluralismo ¢ a tolerdncia como ferra- mentas valiosas para de criar um ambiente liberal, onde os alunos possam aprender cada um das preferéncias pessoais diferentes dos outros. Isso nao 0 ajuda a entender © que estou dizendo com respeito & natureza relativa das reivindicagées da verdade religiosa? — Sim, professora Stone, posso enxergar a verdade no que a senhora falou. — Que bom, Tate! Nosso tempo jd terminou, ¢ a classe esta dispensada. Precisamos olhar para alguns obstdculos que impedem as pessoas de crer na verdade absoluta. O pluralismo é a primeira barreira, por isso vamos comecar com 0 entendimento do que ele é ¢ de como afeta os académicos. Que & pLuraLisno? Uma instituigao superior de ensino é o lugar onde se esperam encontrar as respostas certas a algumas das mais importantes questées da vida. ‘Todavia, a universidade secular costuma estar nos tiltimos lugares da lista em que se en- contram essas respostas acerca da busca da verdade absoluta. Os alunos cristios que chegam a essas escolas normalmente se encontram num ambiente que oferece muitas respostas diferentes as mesmas questées essenciais da vida. Essa posicao filosdfica é conhecida como pluralismo. A verouoe 35 O pluralismo contemporaineo manifesta-se principalmente como a di versidade que se encontra numa sociedade multicultural, Certamente, hé mui- to que ganhar com 0 aprendizado dos varios modos que o mundo ¢ visto, mas como isso se relaciona com a verdade? No que diz respeito & filosofia, 0 plura- lismo ensina que todas as idéias s40 verdadeiras, mesmo as que so opostas, “entre si. A visio pluralista da realidade corréi insidiosamente o cristianismo, que ensina que as concepg6es nao podem ser todas verdadeiras. Em fim, apenas uma é verdadeira, e tudo 0 que se lhe opée ¢ falso. O pluralismo religioso consiste num sistema de crengas que admite a. coexisténcia de uma diversidade de pensamentos, valores e convicgGes conside- rados, principalmente, produtos da familia do individuo, de sua cultura e so- ciedade. Como no didlogo imagindrio anteriormente proposto, o professor que ensina essa filosofia lhe dird que vocé deve aprender a aceitar as visbes alterna- tivas da realidade como verdadeiras ¢ ter prazer no fato de outros poderem enriquecer sua visio da vida oferecendo-lhe uma nova perspectiva da realidade. Portanto, de acordo com o pluralismo religioso, somente faz sentido as mesmas questdes cruciais terem respostas diferentes se tudo depende do modo que o individuo enxerga 0 mundo. Posso enxergar 0 mundo azul. Outro pode crer que o mundo é amarelo. Outro ainda percebe 0 mundo como vermelho. Con- seqiientemente, as respostas As questdes tiltimas da vida terao a cor e a tendén- cia de acordo com o modo que o mundo € visto. Com efeito, temos muitas das mesmas questées tiltimas sobre a vida, como estas: Deus existe? O que é a verdade? Por que estamos aqui? O que é 0 mal e por que ele existe se ha um Deus amoroso? O que da sentido & vida? Segundo o pluralismo, as respostas a essas perguntas dependem de como se vé o mundo. Uma ver que essa espécie de verdade ¢ relativa ¢ de foro pessoal, ninguém deve crer que hé apenas um modo de enxergar 0 mundo. O pluralis- mo éa conclusiio ldgica de uma visio relativa da verdade. F. também a negacio das leis da légica, porque insiste que tanto 4 como nao-A podem ser verdadeiros. A batalha pela verdade absoluta se inicia no momento que comegamos a responder ds questes tiltimas com respostas absolutas baseadas na visio cristi histérica do mundo. Para os estudantes, é uma batalha muito dificil, conside- rando o ambiente em que vivem. Muitos professores e colegas de classe nao hesitam em ensinar que dar respostas do estreito ponto de vista cristéo € pro- blematico. Nao demora muito para dizerem, direta ou indiretamente, que os cristdos ndo sao os tinicos detentores da verdade e que ter essa visio de mundo no passa de uma forma religiosa de discriminagao. Esse tipo de intolerancia 36 FUNDAMENTOS InaBaLavers no se tolera, € os alunos sio aconselhados a abrir a mente e se livrar de téo estreita ¢ tendenciosa visio da realidade. Sao exortados a abandonar a crenca numa Biblia arcaica e fazer parte da esfera da educagao superior, onde vivem as pessoas inteligentes. A tinica visio tolerada nesses circulos académicos é a que concorda com o pluralismo. OQ PLURALISMO DEVE SER ACOLHIDO NO MEIO ACADEMICO? A palavra universidade é baseada no conceito de unidade da verdade, a “tinica entte muitas”. Houve um tempo em que se acreditava que havia uma wnidade global na diversidade (i.e., uni-versidade) que formaya a base das disciplinas académicas, Esse fundamento para a verdade também se baseava em absolutos. Agora, porém, nao se tolera mais essa compreensio, , a universidade passou a ser pluriversidade. Agora existe uma pluralidade na diversidade que nao consi- dera a verdade como um todo harmonioso a ser buscado descoberto entre diversas visées de mundo — e acreditar nessa idéia equivale a praticar heresia académica. Ha trés palavras a incluir em nosso vocabulério acerca da verdade se quisermos ser académica, social ¢ politicamente corretos. Sao elas pluralismo, tolerdncia ¢ liberalismo. Entretanto, é de vital importancia entender quando faz sentido empregar e a valorizar esses termos ¢ quando nao. Mortimer J. Adler expli Pluralismo, tolerancia ¢ liberalismo (0 tipo de liberalismo doutrindrio) séo termos do século vinte que tém poucos antecedentes no pensamento moder- no, principalmente no do século dezenove, ¢ nada se conhece deles na Anti- guidade nem na Idade Média. Os liberais doutrinarios do século vinte abracam 0 pluralismo a tole- rancia como se fossem valores desejiveis, aos quais nio se devem impor restrigéo nem qualificagdes quando aplicados a vida da sociedade ¢ do pen- samento [...] © pluralismo é a politica desejével em todas as esferas de acio € pensamento, exceto onde se exige unidade, Quando se exige unidade, 0 J Na esfera dos assuntos sujeitos ao pensamento ¢ a decisio individuais, pluralismo deve ser fimirado [ o pluralismo € desejavel e tolerdvel somente naquilo que diz. respeito a0 gosto, no a verdade, As preferéncias em relagdo ao que se come ou veste, aos tipos de danga, costumes sociais, estilos de arte, entre outras, no susci- tam perguntas acerca da verdade, Nesses casos, 0 pluralismo sempre existiu na terra [...] Quando em determinada cultura ou sociedade tenta-se reger a A verpave 37 conduta dos individuos no que diz respeito ao gosto, esse regime tende a um controle monolitico das preferéncias ¢ decisdes pessoais. A reaco contra esse regime monolitico ou totalitdrio ¢ a forga motivadora da intrépida defesa liberal da tolerancia da diversidade em todas as quest6es em que os individuos tém o diteito de ser livres para expressar suas prefe- réncias pessoais ¢ agir de acordo com elas. Essas questbes dizem respeito & vontade do individuo, Mas quanto as quest6es de ambito intelectual, as quais envolvem a verdade nao gosto, o pluralismo insistente ¢ intolerével [...] Mas essa incolerancia é simplesmente problema de natureza pessoal. Nao exige suprimir opinises falsas que os outros ainda possam sustentar [...] Exige somente discussio continua entre individuos [...] Aplicar 0 pluralismo com relacio a valores tao desejaveis ¢ toleréveis equivale a repudiar todos os jutzos de valor, como se eles se referissem as preferéncias individuais, nao & verdade. Se, porém, os julgamentos prescritivos que fazemos sobre como conduzir nossa vida e nossa comunida- de — julgamentos estes que contém a palavra “deve” — podem ser verda- deiros ou falsos, entio eles so sujeitos & unidade da verdade, tanto quanto nossos julgamentos na matemética ¢ nas ciéncias empiricas.“ Queremos ser claros em dois pontos criticos que Adler enfatizou. Basicamente, ha lugar para o pluralismo na sociedade com respeito a questoes de gosto, e Adler deu razGes sélidas por que isso faz sentido numa sociedade livre. Em contrapartida, ndo hd lugar para o pluralismo quando se trata de decidir sobre questoes que dizem respeito a verdade, que implicam unidade de pensamento. Portanto, queremos chamar aten¢do para esta pergunta: “As idéias filosdficas e religiosas so questées de gosto ou de verdade?”. O modo mais simples de responder a essa pergunta é deixar os que acredi- tam que a verdade ¢ uma questao de gosto decidir por si mesmos. Digamos que estamos tendo uma discussdo com algumas pessoas que créem que todas as afirmagies filoséficas ¢ religiosas sio meramente questo de preferéncia indivi- dual. Se este & 0 caso, essas pessoas nao deveriam defender-se quando discorda- mos delas, Se se poem a defender a idéia de que essas afirmagées so questo de preferéncia (ou mesmo acreditam que suas afirmagées so verdadeiras!), a ver- dade se revela. Por que haveriam de ficar transtornadas se preferimos uma idéia a outra em matéria de gosto? “Truth in religion, p. 1-4 38 Funoamenros inapativers Por exemplo, se dissessem “Nao existe esse negdcio de verdade com respeito 4 filosofia”, poderfamos simplesmente perguntar: “Sua afirmagao é verdadei- 12”, O individuo intelectualmente sincero deve enxergar a natureza autofrustrante de sua afirmagao. Portanto, as afirmacies filosificas sido matérias relacionadas it verdade. Mas ¢ a religido? As declaragées da religiéo pertencem & esfera do gosto e das preferéncias pessoais? Imagine novamente que vocé é John ‘Tate ¢ vamos dar uma olhada bem de perto naquilo que foi dito em sua aula. Sua professora sustentou veementemente que as crengas religiosas so ques- tao de gosto, de preferéncias pessoais. Ela cré que, quando se trata de religiao, © que é verdadeiro para um individuo necessariamente nao ¢ para outro. O modo mais fécil de verificar a validade dessa convicgao é simplesmente aplicar esse conceito a ele préprio e constatar passa em seu préprio teste. Vocé pode realizar essa tarefa fazendo a pergunta certa & professora Stone,> como: “A sra. acredita que 0 que ¢ verdadeiro para um indiyiduo nao ¢ necessariamente ver- dadeiro para outro. Entdo sua idéia ¢ verdadeira para a senhora ou ¢ verdadeira ‘para mim. ¢ para os outros alunos da classe também?”, Sea opinido da professora Stone fosse verdadeira somente para ela, porque ela prefere crer que se trata de gosto pessoal, por que, entao, estava tentando convencé-lo de que tem de ser verdadeira para a classe toda? Se as convicgdes religiosas so apenas questao de preferéncia, nao faz sentido algum a professora Stone argumentar que a opiniao dela é verdadeira para todos. O ponto de vista dela faz sentido apenas se ela realmente sustenta a convicgiio de que as crengas religiosas sdo questées referentes x verdade. Ambas as posigdes nao podem ser verdadeiras ao mesmo tempo € no mesmo sentido, isso viola a LNC. A professo- ra Stone se contradisse ao pregar uma visdo pessoal da tolerancia ao mesmo tempo que estava sendo intolerante com a crenga de John na verdade “religio- ‘sa’ absoluta, Estd claro que as ideias filosdficas e religiosas so questoes perti- s individuais. nentes a verdade, nao ao gosto ou as preferénci Por conseguinte, ¢ intelectualmente legitimo dar razées para a verdade de uma visio de a realidade ser oposta a outra. E, por isso, as instituigoes de educagio superior nao devem abracar o pluralismo no que concerne as idéias filosdficas € religiosas. Os alunos e professores tém de ter a liberdade de com- partilhar e debater essas questdes, que, em tiltima andlise pertencem ao Ambito do intelecto porque sao problemas relativos & verdade, nao ao gosto. Para aprender a fazer as perguntas certas, leia 0 cap. 3. ‘A verosoe 39 Dissemos que a verdade é uma expresso, um simbolo, ou uma declaragio _que corresponde ao seu referente (i.¢., aquilo a que se refere, seja um conceito [abstrato] ou um objeto real [concreto]. Para que uma afirmagao ou expresso a respeito da realidade seja verdadeira, deve corresponder & realidade. Enere- tanto, essa definicao de verdade presume que podemos conhecer alguma coisa a respeito da realidade. Por isso, antes de continuar, devemos sustentar a verda- de dessa hipétese ¢ mostrar que aqueles que créem que a realidade nao pode ser conhecida laboram em erro. Agnosticismo — que € 1550? Pense no que significa saber que uma coisa existe. A existéncia ¢ 0 fato mais basico a respeito de alguma coisa. Retire-se a existéncia, e nada resta. Nao obstante, muita gente cré que determinada coisa existe ¢ a0 mesmo tempo cré que éimposstvel saber algo a respeito dessa coisa. Essa maneira de ver se chama agnosticismo. A palavta agnosticismo literalmente significa “nenhum conheci- mento”. Thomas Henry Huxley inventou 0 termo em 1869 para denotar a atitude filosdfica ¢ religiosa daqueles que dizem que as idéias metafisicas nao podem ser provadas nem refutadas. As duas formas bésicas de agnosticismo séo representadas por aqueles que créem que nao se combece a tealidade (é 0 agnosticismo “moderado” ou ceticismo) e aqueles que declaram que mio se pode “conhecer a realidade (agnosticismo “extremado”). Mais adiante, mostraremos ao agnéstico moderado por que alguns aspectos fundamentais da realidade sao cognosctveis. Mas a visio do agnéstico extre- mado deve ter resposta antes de prosseguirmos nossa busca da verdade. oF fas os at Sr iseds 1804), estabeleceu a idéia co- nhecida como agnosticismo A fatureza ‘da mefte extremado. O principio central do agnosticismo extremado é que, embora saibamos quea re- alidade existe, o que éa tealidade em si (sua esséncia) nao se pode conhecer pela azo humana, Embora Kant tenha escrito séculos atrés, seus escritos forma- 40 FUNDAMENTOS INABALAVEIS ram muito da base da filosofia moderna. Foi sua pena que pés um fim abrupto ao raciocinio metafisico (oferecendo raz6es para a existéncia de Deus). Kant tragou a linha que estabelece o limite para a razéo humana, linha esta que fixou um abismo intranspontvel entre 0 que a realidade é em si ¢ a nossa capacidade de conhecé-la como tal. Para ajudar a visualizar 0 produto da filosofia de Kant, pense na realidade ttima como o que existe realmente além do mundo fisico. Segundo Kant, nosso raciocinio jamais poderd atravessar 0 abismo daquilo que vemos para o que realmente éc responder a pergunta “O que é isso?”. Conseqiientemente’ , pode- se saber gue a realidade existe, mas 0 que a realidade realmente é em si no se pode conhecer, Para concordar com Kant, precisarfamos crer que as categorias da mente formam ou estruturam a realidade para nés, mas néo podemos nun- ca saber verdadeiramente o que ela é. Enxergamos a realidade apenas como ela se nos apresenta depois de termos moldado a “matéria-prima” da realidade por intermédio das categorias ¢ formas da mente e dos sentidos. A maioria dos filésofos que vieram depois de Kant adotou seu agnosticismo metafisico. Mais tarde, alguns idéias correspondem & realidade, toda verdade deve ser relativa ao modo indi- vidual de nossa mente interpretar a realidade. Disso, 0 conceito moderno de verdade chamado relativismo (toda verdade é relativa), no devido tempo, deu origem ao pluralismo (todas as visbes sao verdadeiras). rgumentaram que se no podemos saber se as RELATIVISNO & PLURALISMO FAZEM SENTIDO? O relarivismo é mais sutil do que 0 agnosticismo extremado, porque os relativistas créem que todas as concepgées da realidade sao verdadeiras den- tro do contexto cultural ou do ambiente do individuo. Se as idéias nao cor- respondem 2 realidade objetiva, logo jamais podemos estabelecer a verdade de um sistema de pensamento sobre outro. Uma opiniao pode ter coeréncia légica dentro de seu proprio conjunto de idéias, mas isso nao significa que corresponda a realidade. Se ndéo podemos conhecer a tealidade, € razodvel crer que as reivindicagées de verdade no maximo refletem um aspecto dife- rente da mesma realidade. Os relativistas nao acreditam que haja apenas um mapa verdadeiro, ou cosmovisio, que corresponda de fato & realidade. *No original, o autor faz um trocadilho, substicuindo a primeira stlaba de consequently (conse- giientemente) pelo nome do fildsofo Kant, originando “Kantsequently” (o que no inglés produz melhor efeito, j& que a prontincia é quase idéntica). (N. da E.) A veroane 41 Cosmovisio é um conjunto de convicgées, um modelo que procura explicar Toda a realidade, nao apenas alguns aspectos dela De acordo com o relativismo, todas as opiniGes descrevem a mesma realida- de de diferentes perspectivas, pois os diferentes pontos de vista do mesmo objeto podem produzir diferentes re- sultados. Por exemplo, um observador que olha um objeto de um determina- do angulo pode enxergé-lo, como ele é, um cilindro. Contudo, se outra pessoa olhasse para o mesmo cilindro de outro Angulo, ele poderia parecer um circulo. — Ainda outra pessoa poderia enxergé-lo ; \nemmeneil como um retingulo de um terceiro pon- 7 Perspectiva n.° 1 Perspectiva n. 2 Perspectiva n.? 3 Circulo, Cilindro Retingulo to de vista. O cilindro no muda de forma, a diferenga esté na mente do ob- servador. Por isso, os relativistas créem que ha muitos modos igualmente véli- dos de ver a mesma realidade. No roteiro imagindtio que apresentamos anteriormente, um aluno cristéo foi exposto ao pluralismo numa aula de filosofia. A professora disse: Uma vez que todos somos cegos para a realidade que pode existir além deste mundo fisico, podemos interpretar essa realidade @ nossa propria maneira [...] As diferentes religides tém interpretagdes diferentes da reali- dade, mas a realidade ¢ a mesma, Parece uma coisa para o budista e outra para 0 muculmano, O cristdo a enxerga de um jeito, ¢ 0 hindu, de outro, ¢ assim por diante. A realidade é uma, mas as idéias sobre ela séo muitas. Hé muitos caminhos que 0 podem conduzir ao topo da montanha. Mas se cada opiniao indica a verdade em tudo que afirma acerca da realidade, como podemos descobrir o que realmente verdadeiro? Por exemplo, os relativistas ¢ os pluralistas religiosos nos convidam a acredi- tar que 0 atefsmo indica a verdade quando os ateistas declaram que Deus nao existe, e que 0 tefsmo indica a verdade quando os tefstas declaram que Deus existe. Os relativistas querem que aceitemos tanto a crenga panteista de que Deus é 0 mundo quanto a tese teista de que Deus nao ¢ 0 mundo. Mas como algo pode existir como 0 mundo € nao como o mundo — ao mesmo tempo e no mesmo sentido? De outro modo, como pode alguma coisa existir e a0 mes- mo tempo nao existir? Se todos cressem que todos os principios de todas as 42 Funoamentos ineaacivers cosmovisées sfio verdadeiros, 0 que significaria a palavra verdade? Se todas as opiniées sobre a realidade sao verdadeiras, todas as opinides sobre a realidade também devem ser falsas e, em tiltima andlise, nao haveria nada que dizer a respeito de coisa alguma. Se todas as afirmagGes indicam a verdade, entéo nada indica a verdade — apontar para todas as diregdes é 0 mesmo que néo apontar para nada’ Isso se chama absurdo porque nao tem sentido ¢ viola a légica (a LNC), e a légica € necesséria para haver sentido. Com isso em mente, queremos verificar quais declaragdes a respeito da rea- lidade lhe correspondem mais precisamente que as outras. Para realizar essa tarefa, primeiro temos de refutar a declaragao do agnosticismo extremado de Kant de que a realidade € essencialmente incognoscivel. Tendo em vista que 0 pluralismo se liga ao relativismo e que o relativismo é um desdobramento do agnosticismo, as trés concepgées se mantém ou caem todas juntas. Antes de criticar essas trés concepgGes ¢ importante fazer uma distingéo com respeito ao pluralismo. Uma vez entendida essa distingao, estaremos mais bem preparados para avangar nossa argumentagio a favor da verdade absoluta. AGNOSTICISMO, RELATIVISMO E PLURALISMO SAO VERDADEIROS? defeito fundamental na posicdo do agnosticismo extremado de Kant é sua pretensio de ter conhecimento daquilo que ele declara ser incognoscivel. Em outras palavras, se Fosse verdade que a realidade nao pode ser conhecida, nin- guém, Kant inclusive, a conheceria, O agnosticismo extremado de Kant se resume a declaracéo: “Eu sei que a realidade ¢ incognoscfvel”. Portanto, preci- samos fazer algumas perguntas bésicas a respeito do agnosticismo de Kant: A idéia de Kant é verdadeira somente para ele ou de fato corresponde a realidade? Sea idéia de Kant nao corresponde & realidade, ela ¢ falsa? Se 0 agnosticismo de Kant corresponde a tealidade, entéo como ¢ que podemos saber o fato mais essencial acerca da realidade — que uma coisa existe mas nao podemos saber ¢ o conhecimento acerca da realidade é nada a respeito do que é a realidade? impossivel para qualquer um, entio também deve ser impossivel para Kant. Se a realidade fosse de fato incognoscivel, como Kant saberia que isso era verdade? Jé demonstramos que a existéncia ¢ 0 fato mais essencial que pode ser declarado de uma coisa, Retire-se a existéncia, ¢ nada resta. Pense nisto: a verdade que se infere das seqiiéncias de pensamento de Kant nos diz que ele tinha de aplicar a razio a realidade para concluit outras verdades acerca do que éa realidade além de sua determinagio de que a realidade existia A veaoane 43 Verdade ou seqiiéncias de Kant 1, Kant sabe que uma coisa real, em si mesma, existe do outro lado do abismo fixo. 2. Kant sabe que essa tealidade é a causa de todas as aparéncias (efeitos) n mente humana. 3. Kant sabe que essa realidade é poderosa bastante para causar efeito uni- versal. Isso é certamente um conhecimento critico a respeito da realidade, 0 que vai de encontro & declaracao do agnosticismo. Nao € possivel saber meramente que a realidade existe sem saber algo a respeito do que ela é, ‘Todo conhecimento requer ter nogio de algum atributo do objeto que estd sendo conhecido. E impossivel afir- mar que uma coisa existe sem declarar simultaneamen- te algo a respeito do que ela é Por exemplo, se alguém apresentasse um disposit vo eletrénico desconhecido na sala de aula (v. ilustra- cao), imediatamente saberiamos alguns faros a respeito dele — mesmo sem conhecer sua fungao. Saberfamos que o dispositivo existe; ¢ fisico; tem determinada cor ¢ forma; mostradores iluminados; funciona com ener- gia elétrica; etc. Nao podemos saber que ele é sem saber algo a respeito do que cle é (mesmo que nao saibamos por que ¢). Portanto, 0 agnosticismo extre- mado é autofrustrante e falso_ A verdade acerca da rea- lidade ¢ que ela existe ¢ podemos saber algo a respeito dela. Logo, somos capazes de descobrir alguns outros ‘atributos da realidade ¢ discernir que cosmovisio lhe corresps Achamos justo dizer que os relativistas e pluralistas, com efeito, créem na onde mais precisamente. verdade absoluta. Eles podem negar isso, mas nao podem escapar da realidade desta hipétese: os didlogos a respeito da verdadeira natureza da realidade (metafisica) 56 tém sentido se as opinides diferentes podem ser comparadas com a verdadcira realidade. Em outras palavras, alguém que tenta defender uma posigao (“toda verdade é relativa” ou “o pluralismo é verdadeiro”) sobre outra (“a verdade absoluta existe” ou “o pluralismo ¢ falso”) automaticamente presume que no final apenas uma opiniao é verdadeira porque corresponde 44 Funoamentos maparavers com mais precisio a realidade. C. S. Lewis ilustrou esse ponto utilizando um mapa.® Explicou que se duas pessoas desenhassem um mapa de Nova York, 0 nico meio de dizer que um mapa é melhor que o outro € comparar os dois com o lugar real que existe, a propria Nova York. A verdadeira realidade de Nova York é 0 padrao pelo qual os mapas devem ser medidos. Se Nova York nao existisse ou se fosse impossivel saber alguma coisa a respeito dela, como poderfamos concluir que um mapa é melhor ou mais exato que 0 outro? Um jeito de ilustrar o absurdo da “relatividade absoluta” é imaginar que estamos sentados num trem que estd preste a deixar a estago. Nosso destino é uma cidade ao norte do lugar onde estamos. Junto ao nosso esté parado outro trem também pronto para partir. Um segundo olhar nos mostra que est ocor- rendo um movimento, mas nao temos certeza de qual dos trens esta-se moven- do. Eo nosso trem que estd se movendo ou € 0 outro? O tinico meio de responder a essa pergunta ¢ olhar para um ponto fixo, uma arvore ou um prédio, do lado de fora da janela. O que acontece se a drvore ou o prédio comecar a se mover também? Seria impossfvel dizer quem ou o que est4 em movimento de fato e em que diregio. A tinica conclusio a que podemos ter dessa situagio é que ocorre movimento. Se tudo estivesse em movimento, como saberfamos se esta- mos nos movendo na diregao de nosso destino (a verdade)? Nao poderfamos afirmar se estamos fazendo progresso (desenvolvendo uma visio melhor da re- alidade). Poderiamos apenas concluir que ocorre o movimento (pensamento). Lewis aplicou essa légica & ética quando disse: Se as coisas podem melhorar, isso significa que deve haver algum padrao absoluto do bem acima ¢ fora do processo cdsmico do qual esse proceso pode se aproximar, Nao faz. sentido falar em “ficar melhor” se melhor signi- fica simplesmente “aquilo em que nos estamos transformando” — seria como alguém se congratular por alcangar seu destino ¢ definir seu destino como “o lugar a que chegou”? Do mesmo modo, nio faz sentido nenhum dizer que o relativismo ou o plura- lismo representa um modo melhor de ver a tealidade que a posigao que cré em absolutos, se essas duas posturas nao forem comparadas em relagio a um ponto fixo ou padrio absoluro. Sem ponto fixo, sé faz sentido dizer que essas posigdes sao diferentes uma da outra ¢ nenhuma é melhor que a outra. Por isso, os SCristianismo puro e simples, p.7. °God in the dock, p. 99. ‘A veronoe 45 relativistas ¢ os pluralistas nao podem rotular logicamente de errada uma posi- cao incompativel com a deles. Podem dizer com légica apenas que a outra posigdo é diferente. Todavia no instante que decidem que eles estado certos e os que créem em absolutos esto errados, tem de concluir logicamente que existe algum padrio absoluto, mesmo que ndo o admitam expressamente. Por conseguinte, 0 relativismo ¢ 0 pluralismo nao podem ser verdadeiros. E CONFIAVEL ATER-SE A VERDADE ABSOLUIA? Agora aplique a ilustragao do trem ao que estamos tentando realizar neste livro. Estamos numa jornada & procura da verdade — a verdade € 0 nosso destino. Mas se toda verdade é relativa, como saberemos se estamos seguindo na diregio correta? Nao faz sentido dizer que estamos progredindo em nossa busca se nao existir um ponto fixo (realidade imutdvel) pelo qual avaliamos 0 nosso progres- so. Todos rém um ponto fixo (ou um absoluto), até os relativistas. De outra forma, nao poderiam afirmar que tm uma visio correta da realidade. Os de- fensores do relativismo podem expressar — e freqiientemente o fazem — suas convicgdes de modos sutis ¢ velados. Entretanto, quando expressos em portu- gués claro, seus absolutos ficam mais dbvios. Pense nisto: por que os relativistas argumentam a favor da verdade de suas proptias posigdes? Em outras palavras, se néo hé uma concepgao da realidade melhor que a outra todas so tdo-somente diferentes umas das outras, por que se importar argumentando a favor da verdade do relativismo — a menos, naturalmente, que os relativistas cteiam que de fato tém a melhor visio da realidade! Considere os escritos de um famoso relativista, Joseph Fletcher (um dos signatérios do Manifesto Humanista 1). Em seu livto Sirwation ethics [Erica sitmacional}, Fletcher diz: “O situacionista evita palavras como ‘nunca’, ‘perfei- to’, ‘sempre’ ¢ ‘completo’ como evita a praga, como evita ‘absolutamente’”.® O que Fletcher esté de fato dizendo é 1) “nunca ninguém deve usar a pala- vra ‘nunca’; 2) “deve-se sempre evitar empregar a palavra ‘sempre’; ¢ 3) “deve- se negar absolutamente todos os ‘absolutos”.” Negar a validade dos absolutos viola a légica (UNC) e é autofrustrante. Uma vez que é autofrustrante crer que todas as visbes da realidade séo falsas ou relativas e é contraditério crer que todas as visdes da realidade sao verdadei- "P 43-4. °Norman L. Geiser, Js man the measure?, p. 180. 46 FUNDAMENTOS INABALAVEIS ras, a tinica op¢do légica é crer que algumas dessas vis6es representam a realida- dede modo melhor ¢ mais preciso que as outras, Portanto, para que uma inves- tigagdo filoséfica tenha sentido, é forcoso orer na verdade absolura, Cret que existe uma realidade cognoscivel, transcendente imutével (um ponto fixo ou tefe- rente) faz sentido. Sobre isso, j demonstramos que a verdade acerca da realida- de pode ser conhecida ou descoberta. Como entender as outras caracteristicas da realidade e formular um teste para julgar as outras declaragées de verdade a tespeito dela € 0 proximo passo de nossa caminhada. Como SE PODE CONHECER A VERDADE A RESPEITO DA REALIDADE? Uma vez que a realidade é cognoscivel, ¢ preciso primeiro aprender a utilizar os primeiros principios para saber que declaragGes a respeito da realidade sao ver- dadeiras. A disciplina académica que procura investigar qual visio da realidade éverdadeira chama-se epistemologia. A epistemologia é 0 estudo sistematico da natureza, das fontes ¢ da validade da teoria do conhecimento (grego epistéme, “conhecimento”, ¢ logia, “tratado” ou “discurso”). Como se afirmou anterior- mente, a légica em si pode-nos dizer 0 que é falso, mas nao pode determinar o que é verdadeiro. A légica se preocupa com 0 problema especifico e formal do raciocinio vélido; a epistemologia trata da natureza do raciocinio correto em erdade e do processo de conhecer o verdadei Eo ramo da filosofia que diz respeito aos métodos de conhecer a verdade, utilizando a Idgica como teste negativo. A epistemologia trata dos modos que justificam as convicgdes, isto ¢, os modos que podem testar nossas convicgées e verificar se elas constitu- em conhecimento. Mortimer J. Adler, autor e fildsofo célebre, escreveu extensamente sobre algumas das maiores idéias filosdficas debatidas através dos séculos, Ele é pro- vavelmente mais bem conhecido pela publicagao de Great books of the western world [Os grandes livros do mundo ocidental. Juntamente com esse projeto, Adler produziu o Syntopicon, dois volumes contendo 102 artigos sobre “os 102 objetos do pensamento que em conjuntodefiniram © pensamento ocidental durante mais de 2 500 anos [...] Esses artigos [...] permanecem como pega central dos Great books of the western world da Enciclopédia Britanica’.'° Com relagao & busca da verdade, Adler defende a posi¢ao de que a verdade ¢ um todo harmonioso, ou uma esfera, constituida de muitas partes. Contudo, cada parte "The great ideas: a lexicon of western thought, primeira sobrecapa ‘A veroave 47 dessa esfera coesa da verdade difere quanto ao método pelo qual é descoberta. Ele chama essa idéia de principio da unidade da verdade. Adler diz. que “todas as diversas partes do todo da verdade de- vem ser compativeis. umas com as ou- tras a despeito da diversidade dos meios pelos quais so alcangadas ou recebi- das”."! Adler se refere ao que se conhece como a coeréncia da verdade toda. Aplicare- mos essa teoria ¢ estabeleceremos um método de teste que nos vai permitir descobrir a verdade acerca da realidade de uma maneira que sustente o princf- pio da unidade da verdade (coeréncia). O procedimento que estamos propon- do implica identificar os primeiros prin- Abe Aesiera da verdade ae efpios das disciplinas académicas que constituem as varias partes da esfera da verdade. Procedendo assim, também devemos nos empenhar para verificar se a coeréncia (unidade) delas esta assegurada. Por exemplo, 0 que descobrimos ser verdadeiro de acordo com os primeiros principios da ciéncia deve ser coerente com as verdades anteriores estabe- lecidas pelos primeiros principias da ldgica e da | filosofia, ¢ néo viold-los. ‘ (Como mostramos, a LNC preeminente.) A Correspond medida que continua- mos a descobrir, identi- ficar ¢ unir os primeiros principios das outras disciplinas académicas ¢ formar uma lente inte- lectual, comegamos a ver que as diversas partes da Realidacle verdadeira Disciplinas Académicas| “Truth in religion, p. 105. 48 — Funoamentas iNapativels esfera da verdade podem-se unir pata formar um todo coerente. Uma vez com- pletamente montada essa lente, podemos olhar através dela e fazer certas inferéncias que vao corresponder d realidade global existente. Esses dois elemen- tos da epistemologia (coeréncia ¢ correspondéncia) vao constituir nosso méto- do de testar as declaragdes de verdade de uma determinada cosmovisao. Ao conceber esse teste metodoldgico, podemos pensar nele juntando todas as partes (primeiros principios) da lente intelectual de maneira coerente ¢ coesa. Pouco a pouco, as caracteristicas mais essenciais da realidade véo aparecer em foco, 4 medida que se fazem as inferéncias corretas com 0 auxilio dessa lente. Essa visio da realidade (cosmovisio) passa a ser para nds a estrutura interpretativa por meio da qual os fatos deste mundo podem ser explicados. Ja temos trés partes da lente juntas, os primeiros principios da ldgica (INC, LTE, € LID) € a filosofia (0 ponto fixo da realidade imutdvel). A LNC, no sentido estrito, é absolutamente a primeira na ordem do saber, pois todo conhecimento humano depende dela. Logo, merece ser a pega central da lente, uma vez que sera utilizada em todas as disciplinas académicas. Todo campo do conhecimento de- pende do uso correto da LNC para ter validade. O ponto fixo na filosofia € 0 que nos dé a credibilidade académica para continuar nossa busca da verdade. Os outros ramos do conhecimento humano também tém associados consigo pri- meiros princfpios no sentido que cada principio é primeiro como fonte, e base, desse ramo espe- cifico do conhecimento huma- no. Os primeiros princfpios que buscamos sao os pontos de par- tida fundamentais, ou verdades auto-evidentes, das disciplinas académicas: ciéncia, direito, his- toria e ética. Se conseguirmos demonstrar que cada parte da lente intelectual representa al- gum atributo essencial da natu- : Perpectiva n® 1 Perspeciva ne? Perspectva n2 3 reza da realidade, entao a lente Sireulo eating Retanga intelectual passaré a ser 0 padrio pelo qual devemos testar todas as declaragées de verdade acerca do mundo. Para concluir, seré titil pensar na ilustragao do cilindro jé mencionada quando se falou do relativismo e do pluralismo. Concordamos que alguns aspectos de A veroane 49 um objeto so questo de perspectiva, porque dependem de quem observa, como ilustra a figura ao lado. Contudo, insistimos que nao tem sentido decla- rar que todas as idéias sao simplesmente uma questdo de perspectiva. Por exem- plo, nao ¢ questao de perspectiva que o cilindro existe como 0 percebemos — a realidade de fato do cilindro € 0 que da a cada perspectiva sua validade. A perspectiva n° 2 dé uma idéia mais clara ou melhor das caracteristicas do cilindro que a perspectiva n.° 1 ou a perspectiva n.° 3. Mas dizer que a perspec- tiva n.° 2 éa mesma realidade que perspectiva n.° 1 ow a perspectiva n.° 3 — que o cilindro é um circulo ou um retangulo — nao faz nenhum sentido. Pelo contrario, faz pleno sentido dizer que cada perspectiva tem alguma verdade, ¢ a perspectiva n.° 2 nos dé um retrato mais definido do que se percebe. Se estivermos procurando o ponto de vista que nos dé compreensio clara do que o objeto realmente é, entdo a perspectiva n.° 2 é melhor que a perspectiva n° 1 ou que a perspectiva n.” 3, Obviamente, somos finitos e s6 podemos en- xergar 0 cilindro todo observan- do-o parte por parte, diferente de Deus, que o enxerga por in- teiro de qualquer angulo. Voltemos também a ilustra- gio do elefante. A professora Stone contou a pardbola ilustra- da na qual diferentes religides Deus Deus tém diferentes interpretacées da realidade, mas a tealidade é a mesma. (Parece uma coisa para o budista ¢ outra para o mugulmano. O cristo a vé de um modo, e 0 hindu, de outro, e assim por diante.) Antes de falar sobre essa pardbola, precisamos explicar que as religiGes c filosofias podem ser examina- das a luz da cosmovisio a qual pertencem. Em outras palavras, a cosmovisio fornece a infra-estrutura ou fundamento bésico para as varias religides ¢ filosofias da vida, como exemplifica o gréfico ao lado. Portanto, em ver de analisar cada religido ¢ filosofia de vida, podemos examinar a cosmoviséo sobre a qual uma determinada religido ou filosofia se edifica. Uma vez que cada cosmovisio tem convicgées centrais opostas as demais, logo, logicamente apenas uma cosmovisao pode ser verdadeira, as outras devem set falsas. Os principais dogmas do ateismo, 50 FUNDAMENTOS INABALAVEIS panteismo e teismo (as cosmovises considerada neste livro) sero explicados no capitulo 3. Quanto a pardbola do elefante, os relativistas precisam presumir 0 conheci- mento da totalidade do elefante a fim de saber que cada pessoa tocou uma parte dele, Nao se pode conhecer o elefante todo de uma sé perspec- COSMOVISOES E RELIGIOES tiva, mas pode-se ver suas virias partes de uma perspectiva de cada ATEISMO PANTEISMO | — TEISMO vez. Do mesmo modo que no | Taoisino | Hindufsmo| Judatsmo exemplo do cilindro, Deus vé 0 elefante por inteiro. Para nés, cada Jainismo Nove Era Islamismo Angulo por onde se observa o ele- - eas : Humanismo | Zen- | Cristianismo Creme eee ee dele. Sendo assim, poder-se-ia pensar que quando um ateu, um panteista ¢ um tefsta tocam a mesma parte do elefante, todos devem ser capa- zes de concordar sobre que parte é essa. Além disso, uma vez que os primeitos principios formam os fundamentos sobre os quais todo conhecimento se cons- 118i, até os dogmas dessas trés cosmovisdes, temos de set capazes de demons- trar qual cosmovisio faz inferéncias correras e chega a conclusdes verdadeiras. Para realizar essa tarefa, jd sugerimos uma prova metodolégica que utiliza os ptimeitos princfpios, explicados no capitulo 3. No momento, estamos mera- mente mostrando como a mesma parte do elefante (realidade) nao pode ser uma coisa para um tefsta ¢ também ser uma coisa completamente oposta para um ateista ou um pantefsta. Visto que somos seres finitos ¢ néo podemos enxergar 0 todo da realidade de uma ver, nossa perspectiva da realidade € necessariamente limitada por nossa finitude. Mesmo assim, cremos que é possivel ter conhecimento sufici- ente da realidade para encontrar as respostas a algumas das questées mais im- portantes da vida sem deter conhecimento exaustivo da realidade. Aplicando a légica ¢ a filosofia, j4 definimos a existéncia da realidade fixa ¢ cognoscivel. Mantendo a analogia do clefante, digamos que acabamos de tocar a orelha 0 lado do clefante (dois aspectos da realidade) ¢, visto que usamos os primeiros princfpios para tocar essas partes, nao hé nenhuma cosmovisio particular nem nenhum preconceito religioso implicito. Portanto, empregando os primeiros principios de outras disciplinas como mecanismo sensorio, podemos prosse- guir fazendo inferéncias ¢ tirando conclusdes a respeito da realidade do mesmo A veroane 5) modo. Nossa primeira concluséo acerca da realidade, isto é, que ela existe ¢ é cognoscivel, é conhecida como realismo. Atingir esse primeiro ponto de verificagio conhecido por realismo significa que fizemos progresso significative em nossa jornada rumo & verdade, Chega- mas a ele aplicando os primeiros princ{pios da ligica e da filosofia & realidade que inegavelmente sabemos que existe. Para ir mais além em nossa peregrina- G40, nao podemos recuar. Em outras palavras, agora que estabelecemos a verda- de desses principios ¢ as conclusdes titadas com o auxilio deles, nao poderemos negé-los dentro da Iégica em nenhum momento futuro para tentar fugir da realidade que descobrimos. Desse ponto nao ha retorno, ¢ € nesse ponto que podemos definir a natureza da verdade. Averdade por sua propria natureza é: Nao-contraditéria — nao viola as leis basicas da ldgica. Absoluta — nao depende de tempo, lugar nem condigéo nenhuns. Revelada — existe independentemente de nossa mente; nao a criamos. Des Inevitavel — negar-lhe a existéncia ¢ confirmé-la (estamos presos a ela). itiva — & a concordancia da mente com a realidade (correspondéncia). Imutével — é 0 padrao fixo pelo qual se verificam as declaragdes de verdade. Continuaremos a aplicar 0 teste - mencionado antes as varias con- Atciomo | Pantetsmo [TBs vicgGes que cada cosmovisao sus- Relativa. | Relativa a este| A verdade sea Bassi |Verdadle] Nao ht mundo — | absolita tenta como verdadeira. B assim oni ee que vamos descobrir qual - A fe Cosmos| Sempre existiu] Nao é real, | Realidace cosmovisao tem a explicagao cor- mas itusso | criacla reta da realidade. ae Deus | Navexiste | Existe, mas é | Existe, e 6 A primeira coluna da tabela incognosctvel |cognoscivel ao lado arrola a questao de acor- Relativo a este] Absoluto, do com cada disciplina académi- Direito | “eterninace mune — | objetivo e ae . Del reveladlo ca que seré utilizada neste livro. | ded pela revelack ae oe humanidade As colunas 4 direita das discipli- nas arrolam as teses de cada | Mal | ‘gtordncia | Nio dre, | Coragao humana | mas ilusto | egorsta cosmovisio: atefsmo, pantefsmo Griada pola | Relativa, | Absotuta, : ‘ humanidade, | transcencde o | objetiva, e aqui demonstramos que seria ésituacional | bem eo mal | prescritiva € teismo, respectivamente. Até | ética autofrustrante crer que a verdade é telativa, Como indica 0 quadrado superior direito, em destaque na tabela, 52° FuNDAMENIOS INaBALAVEIS apenas o teismo concorda com as conclusées tiradas dos primeiros princtpios da ldgica eda filosofia. Conseqiientemente, podem se eliminar o agnosticismo extremado e oagnosticismo moderado/ceticismo,"? uma vez que sao autofrustrantes ao decla- rar que sabem que nao podem saber nada e nao duvidam de que devem duvidar de tudo. Dentro em pouco vamos aplicar nosso teste da verdade a cada cosmovisiio no que concerne a suas teses com relacéo ao cosmos: a otigem do universo, a origem da vida ¢ a otigem das novas formas de vida. No entanto, antes de empregar a disciplina académica da ciéncia para decidir que mundividéncia do cosmo é verdadeira, devemos primeiro adqui ira devida compreensio do que é cosmovisao (mundividéncia, visto de mundo) e de como ela afeta as convicgdes € as atitudes de um individuo. Portanto, vamos observar mais de perto o signi- ficado do termo cosmovisdo ¢ 0 que declaram as cosmovisées ateita, pantefsta ¢ tefsta. "Os agndsticos declaram saber que nao podem saber. Os edticos no duvidam de suas dtividas, nem retiram o julgamento sobre sua reivindicagio de que devemos retirar o julgamento, CAPITULO TRES As cosmovisdes Idéias tém consegiiéncias. —Riciarp M. Weaver Qué & cosmovisio? JA dissemos que a cosmovisdo é andloga & lente intelectual através da qual as pessoas véem a realidade e que a cor da lente é um fato fortemente determinante que contribui para o que elas créem acerca do mundo. Além disso, cosmovisao é um istema filos6fico que procura explicar como os fatos da realidade se relaci- onam ¢ se ajustam um ao outro. Uma vez reunidos os componentes da lente, ela focalizaré o plano geral da realidade que dé a estrutura na qual as partes menores da vida se harmonizam. Em outras palavras, a cosmovisao da forma ou colore o modo que pensamos c fornece a condicao interpretativa para entender ¢ explicar os fatos de nossa experiéncia. Ainda mais importante que entender o que é uma cosmovisio, ¢ mais criti- co, é compreender as conseqiiéncias légicas associadas a viver de acordo com as convicgées que uma determinada cosmovisao sustenta como verdadeira. Essa reflexao nos leva a nossa préxima pergunta. Por QUE AS COSMOVISOES SAO IAPORTANTES? Uma vez que nossas idéias influenciam nossas emogoes, reagdes e conduta, € particularmente importante para nés conhecer aquilo em que cremos € por qué. Pense no tipo de conseqiiéncias histéricas que advém direta ¢ logicamente 54° FUNDAMENTOS INABALAVEIS de uma cosmovisio — as crengas ou convicgées. Um homem, Adolf Hitler, apelou para 0 povo de seu pais a fim de obter apoio para avangar na realizagio légica da cosmovisio deles. Disse: © mais forte deve dominar, nao se igualar ao mais fraco, 0 que significaria © sactificio de sua propria natureza superior. Somente 0 individuo que é fraco de nascimento pode entender este principio como cruel. E, se faz isso, é meramente porque é de natureza mais fraca e de mente mais obtusa, pois se essa lei nao direcionasse 0 proceso de evolugio, 0 desenvolvimento supe- rior da vida orginica nao seria concebivel de forma alguma (...] Se a Natu- reza nio deseja que os individuos mais fracos se igualem aos mais fortes, deseja ainda menos que uma raga superior se misture com uma inferior, porque nesse caso todos os seus esforsos, a0 longo de centenas de milhares de anos, para estabelecer um estégio evolutivo mais alto do ser, podem: traduzir em inutilidade.' Hitler referia-se a essa solugéo da natureza como “totalmente légica’. De fato, era téo légica para os navistas que eles construiram campos de concentragéo para levar a cabo suas convicgées acerca da raga humana como “nada além do produto da hereditariedade ¢ do ambiente” ou, como os nazistas gostavam de dizer, “do sangue ¢ do solo”.? Auschwitz era um desses campos de concentra- cao onde os preceitos teéricos foram aplicados ao mundo real. Se estivéssemos visitando Auschwitz hoje, poderfamos andar nos corredores de alguns edificios onde yeriamos 0 impacto inimagindvel que uma cosmoviséo pode causar (e de fato causou) sobre todo o mundo. A maioria dos visitantes nao esta preparada ¢ fica chocada ao ver as fotos de mulheres gravidas de criancinhas que foram torturadas até a morte por oficiais nazistas. Lembrando os cingtienta anos da libertagao de Auschwitz, a revista Newsweek publicou como matéria de capa uma entrevista com o general Vasily Petrenko, 0 tinico comandante sobrevi- vente das quatro divis6es do Exército Vermelho, que cercou ¢ libertou Auschwitz: Petrenko era um veterano endurecido de uma das piores batalhas da guerra. “Eu havia visto muita gente morta’, Petrenko diz, “Havia visto muitas pes- soas penduradas ¢ muitas queimadas, Mas ainda nao estava preparado para Auschwitz.” © que o espantou sobremaneira foram as criancas, algumas ‘Mein kampf, p. 161-2. °Vikktor FRankL, The doctor and the soul: introduction to logotherapy, cci. As cosmovisdes 55 ainda em idade tenra, que foram deixadas para trés na fuga répida, Essas ctiangas eram os sobreviventes dos experimentos médicos perpetrados pelo dr. Josef Mengele, médico do campo, e os filhos dos prisioneiros politicos poloneses recolhidos apés a malfadada revolta em Varsévias A citagio de Mein kampf (Minha vidal, bem como este breve excerto do Newsweek, deve ser um lembrete de que as cosmovisées levam a conclusdes € conseqiiéncias. As convicgées fortes de homens como Hitler e Mengele mos- tram que a maneira de ver o mundo (cosmovisdo) pode mudar a face deste mundo. Entender 0 que as diferentes cosmovisdes ensinam ¢ a conseqiiéncia logica de cada uma ¢ crucial. Por isso, pretendemos resumir alguns dogmas centrais das cosmovisdes examinadas neste livro a fim de averiguar-lhes as con- vicgGes e constatar quais tém credibilidade. Mas hd muitos outros modos de ver a realidade. Parece que pode haver tantas cosmovisdes quantas pessoas ha no mundo. Assim, antes de ir aos princ{pios principais das cosmovisées que discutiremos, vamos identificar quais deles pretendemos examinar. QuANiAs cosmovisoEs EXIsTEM? Hé sete cosmovisdes: tefsmo, ateismo, panteismo, panenteismo, defsmo, politefsmo, ¢ o deismo limitado, Sabemos que todas essas cosmovisées se di- fundiram em nossa cultura e existem, de uma forma ou de outra, em pratica- ios dos Bua e de mente todas as faculdades seculares ou campus universitd muitas do restante do mundo, Neste livro vamos investigar somente as trés cosmovisdes mais influentes em nossa cultura ocidental: atefsmo, pantefsmo e teismo.* Consideremos primeiro a cosmovisio em que se insere 0 cristianismo orto- doxo, 0 reésmo. O tefsmo ensina que ha somente um Ser infinito ¢ pessoal, que estd além deste universo fisico finito. Os tefstas créem que os atributos do Deus da Biblia podem ser parcialmente conhecidos por meio da natureza, do mesmo modo que os atributos de um artista podem ser reconhecidos em sua pintura, A Biblia informa-nos que Deus plantou com rafzes profundas no co- racio ena mente de todo ser humano um conhecimento indelével de alguns de ‘Jerry Apter, The last days of Auschwitz, Newsweek, 16/1/95, p. 47. °O deismo limitado é abordado brevemente no cap. 11 com referencia ao livro Quando coisas acontecem a pessoas boas, do rabino Harold Kushner. Para mais informagio a respeito das sosmovisdes, v. When skeptics ask, capitulo 3, de N. L. Geisler e R, M, Brooks. 56 — FUNDAMENTOs INABALAVEIS seus atributos, conhecimento este claramente perceptivel na observagio da natureza: Pois 0 que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus Ihes manifestou. Pois desde a criacéo do mundo os atributos invisiveis de Deus, seu eterno poder ¢ sua natureza divina, tém sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais ho- mens so indesculpaveis.? A luta pela verdade concentra-se no que Deus revelou a todas as pessoas a respeito de si proprio. De acordo com o tefsmo biblico, esse versiculo deixa claro que Deus vai considerar cada individuo, sem levar em conta sua cultura ou sociedade, responsavel pelo que revelou de si por intermédio da natureza. Os primeiros dois capitulos da Carta aos Romanos nos ajudam a entender exatamente 0 que Deus revelou claramente: ele ¢ a fonte de poder eterno ¢ infinito que causou ¢ sustém a existéncia do universo e sua divina natureza é a base para a ética. Entretanto, Deus também diz que essa verdade tem sido suprimida pela mé condigéo moral dos individuos, nao por causa da ignorin- cia intelectual. EN QUE DIFEREM AS COSMOVISOES? A discordancia mais fundamental entre as cosmovisGes baseia-se na existéncia e na natureza de Deus. Num livro que registra um debate entre um ateu ¢ um teista, Peter Kreeft faz a seguinte observacao a respeito da existéncia de Deus: A idéia de Deus tem guiado ou enganado mais vidas, mudado mais a histé- ria, inspirado mais muisicas ¢ poesias ¢ filosofias que qualquer outra coisa, real ou imaginada, Tem feito mais diferenga na vida humana neste planeta, tanto individual como coletivamente, do que nada jamais fer.$ Para obter algum entendimento das diferengas principais existentes entre 0 atcfsmo, o panteismo e o tefsmo, precisamos apenas definir cada cosmovisio € arrolar suas doutrinas principais. © motivo dessa comparacio é demonstrar a natureza logicamente impossivel das declaragGes essenciais de verdade que cada cosmovisio tem a respeito de Deus, da realidade, da humanidade, do mal e da ética. Recomenda-se algum estudo adicional de cada cosmoviséo, mas os prin- Romanos 1.19,20. SJ, B. MORELAND & Kai NIELSEN, Does God exis?, p. 11 As cosmovisoes 57 ctpios aqui expostos vao servir para 0 nosso propésito. Por fim, vamos verificar qual conjunto de principios de uma cosmovisio _condiz mais precisamente com as verdades fundamentais usadas como base para cada campo académico do conhecimento estudado aqui neste livro. EM QUE ACREDITAM OS ATEISTAS? O ateismo acredita que nao existe Deus nenhum, seja no proprio universo, seja além dele. © universo ou cosmos é tudo o que existe ou existird, ele é auto- sustentavel. Entre os mais famosos ateus estao Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Jean-Paul Sartre. Seus escritos tiveram tremenda influéncia sobre o mundo. Esses homens expressaram suas idéias de modos diferentes, mas todos sustentaram a convic¢ao bdsica de que Deus nao existe. Entre os principais ensinos do atefsmo esto os seguintes: * Deus — Nao existe. Existe somente o universo. * Universo — E eterno; ou casualmente veio a ser.. + HUMANIDADE (origem) — Evolufmos, somos compostos de moléculas ¢ nao somos imortais. * Humanipae (destino) — Nao temos nenhum destino eterno e sere- mos aniquilados. * Mat (origem) — E real, causado pela ignorancia humana. + Mat (destino) — pode ser derrotado pelo homem por meio da educa- cao. + Erica (base) — E criada pela humanidade e fundamentada na propria humanidade. ¢ Erica (natureza) — E relativa, determinada pela situagio. Em QUE ACREDITAM OS PANTEISTAS? Outra visio de mundo importante é a crenga de que Deus é 0 universo. Essa visdo se chama panteismo, manifesta-se na forma popular como Movimento Nova Era. Para o panteista nao hd criador além do universo, criador e criagdo so dois modos diferentes de enxergar a mesma realidade, e em tiltima andlise existe apenas uma realidade, nado muitas realidades diferentes. Deus permeia todas as coisas e se encontra em todas elas. Nada existe & parte de Deus: Deus é0 mundo e o mundo é Deus; Deus ¢ 0 universo e 0 universo é Deus. Hd diferentes tipos de pantefsmo, representados por certas correntes do hinduismo, do budismo zen e da Nova Era. As idéias desses grupos diferem a respeito de 58 — FUnoaMenos inaBaLivels como Deus e o mundo se identificam, mas todos créem que Deus e 0 mundo séo um. Entre os principais ensinos do panteismo estéo: * Deus —E um, infinito, normalmente impessoal; ele € 0 universo. * Universo — E uma ilusa real. 0, uma manifestacao de Deus, 0 tinico que é * Humanipabe (origem) — O verdadeiro eu (arma) do homem é Deus (Brahman). * HuManipané (destino) — Nosso destino é determinado pelos ciclos da vida, 0 carma. * Mat (origem) — £ uma ilusio causada pelos erros da mente. * Mat (destino) — Serd reabsorvido por Deus. + Erica (base) — Os prineipios éticos se baseiam em manifestagies infe- tiores de Deus. © Erica (natureza) — Os principios éticos sao relativos, wanscendem a iluso do bem e do mal. EA QUE ACREDITAM OS TEISTAS? Por sua vez, 0 tefsmo é a cosmoviséo que sustenta a crenca de que o mundo é mais do que apenas o universo fisico (atefsmo). Ao mesmo tempo, os teistas nao accitam a idéia de que Deus 0 mundo (pantefsmo). Créem na existéncia io. de Deus e véem sua existéncia como 0 componente essencial da cosmovi teista. Os tefstas esto convencidos de que o universo teve uma Causa Primeira sobrenatural infinitamente poderosa ¢ inteligente, um Deus infinito que esté além do universo ¢ nele se manifesta. Esse Deus é 0 Deus pessoal, separado do mundo, que criou o universo ¢ o sustém, Os tefstas créem que Deus pode agir no universo de maneira sobrenatural. As religides tradicionais, judaismo, islamismo ¢ cristianismo, representam o tefsmo. Entre seus principais funda- mentos estao: * Deus —E um s6, pessoal, moral, infinito em todos os seus atributos. * Universo — E finito, criado pelo Deus infinito. + Humanwabe (origem) — Somos imortais, criados ¢ sustentados por Deus. + Houmanape (destino) — Por escolha seremos eternamente separados de Deus ou viveremos eternamente com ele. * Mat (origem) — E a privacao ou imperfeigZo causada pela escolha. As cosmovistes 59 * Mat (destino) — Serd finalmente derrotado por Deus. ie Enc (base) — Os principios éticos se baseiam na natureza de Deus. + Erica (natureza) — Os princtpios éticos sio absolutos, objetivos ¢ prescritivos. Que € confusio DE cosmovisdEs? Nosso juzo de certas quest6es da vida depende de como vemos o mundo, s conclusées por causa das suposigées que fazemos quando a formulamos, Por exemplo, os atefstas, que decidiram que a macroevolucio é responsdvel pela vida que observamos no universo, baseiam sua teoria em suposicées puramente naturalistas feitas dentro da cosmovisio ateista. Conseqiientemente, concluiram eles que nao existe Deus algum. Ao mesmo tempo, os tefstas podem olhar as mesmas evidéncias ¢ mostrarem que a tinica resposta para a existéncia de vida inteligente no universo observavel é a agao de uma Causa Primeira (Deus) inteligente. Os mesmos fatos do uni- verso so disponiveis para o ateu e para o teista, todavia, as sua conclusdes sio inconcilidveis. Essas respostas incompativeis resultam do que chamamos con- fusio de cosmovisoes, Uma vez que nossos juizos a respeito da vida sao influen- ciados por nossa cosmovisio, ¢ as diferentes cosmovisdes chegam essencialmente a respostas diferentes as mesmas questdes, que caminho tomaremos daqui para frente? Sugerimos langar um olhar mais préximo na estrutura da lente intelectu- al (cosmoviséo) empregada para interpretar os dados sob investigacao ¢ ad- quirir algum conhecimento de como se constitui essa lente. Entender as hipéteses que constituem a estrutura principal das cosmovisdes é um aspecto essencial para aprender a transmitir nossas convicgdes a varias cosmovisées sem interpret4-las erroneamente através de lentes de outras cores, Portanto, esta lente é o ponto de partida para a busca do terreno comum: os princfpios empregados na formulagao de toda e qualquer cosmovisio. A primeira vista, as cosmovis6es apresentadas acima parecem nao compartilhar muitos atribu- tos. Todavia, como as lentes, elas sao feitas de superficie curva de vidro e cada uma tem um ponto focal. Por essa razdo, somos capazes de encontrar algu- mas hipéteses comuns sobre as quais construir uma discussao ldgica antes de argumentar a respeito de qual interpretagao das evidéncias ¢ a correta. O que queremos dizer ¢ que um bom modo de dialogar com as cosmovisdes ¢ fazer as _perguntas corretas. 60 — FUNDAMENTOS INABALAVEIS Por QUE £ TAO IMPORTANTE FAZER PERGUNTAS? Hé muitas boas razes para fazer perguntas sinceras num didlogo. Uma delas € que a pergunta sincera permite ao outro perceber que estamos genuinamente interessados na opiniao dele. Lembre-se de que a mera final da apologética (dar razbes da nossa fé) é confirmar e defender nossas convicgées gentilmente, na esperanga de que Deus leve os individuos a um relacionamento com ele por intermédio de Jesus Cristo. Apenas vomitar respostas ou desafiar antipat mente as pessoas com a fé crista nao vai ajudar a construir nenhum relaciona- mento com aqueles que precisam conhecer a Deus. Portanto, é essencial reconhecer que uma pergunta devidamente colocada, feita em atitude de amore preocupagdo, pode ser muito mais eficaz do que apenas tentar provar um ponto e vencer uma discussao. JA se disse com razao que alguém pode ganhar uma discussao, mas perder 0 oponente nesse processo. Fazer o tipo certo de perguntas pode ajudar a desar- mar um didlogo potencialmente explosivo e transformé-lo numa discussao efi- caz. Quando se esta emocionalmente envolvido numa questio, fica cada vez mais dificil seguir um argumento ldgico. A confusao pode ficar téo grande que 0 resultado é normalmente uma discusséo que “produz mais calor que luz”. Nossa tarefa principal ¢ fugir do aspecto emocional do didlogo ¢ procurar esta- belecer uma base comum para haver comunicacao util. A sala de aula é sim- plesmente o tipo de lugar onde as emogées podem fugir ao controle, de modo que vamos usar essa arena para observar 0 que pode acontecer quando um professor ou um colega de classe questiona o cristianismo. Imagine-se como aluno de uma faculdade cujo professor de biologia sabe que vocé cré que Deus criou 0 universo. Um dia ele decide pedir-lhe que justi- fique sua posigao perante a classe e pergunte: “Como vocé consegue acreditar na Biblia se ela contradiz tudo 0 que conhecemos como cientifico? Por exem- plo, a ciéncia demonstrou que ¢ impossivel ocorrer milagres. Apesar disso voce prefere crer nos milagres registrados na Biblia a acrediar na ciéncia. Por qué”. © que vocé responderia a esse professor? Quase todos nés fomos ensinados a responder a perguntas com respostas. Entretanto, esta nem sempre é a aborda- gem mais sabia. Pode acontecer que a pergunta do seu professor de biologia precise ser mais bem entendida. O fildsofo Peter Kreeft diz: Nao ha nada mais sem sentido que a resposta a uma pergunta nfo plena- mente entendida, ou nao totalmente exposta. Somos impacientes demais ‘As cosnovisoes 61 com perguntas @, por isso, muito superfici s na apreciagio das respos- tas. Em vez de dar uma resposta imediata & pergunta do professor, talvez seja mais sabio esclarecer a posigao dele primeiro, fazendo uma pergunta para ele. Masa sua pergunta tem de ser muito boa, senio poderd ver-se envolvido numa conversa emocionalmente carregada. Por essa razo, queremos apresentar um método que o vai ajudar a fazer os tipos certos de perguntas em circunstancias iE dificeis. Sao perguntas planejadas para neutralizar uma discussio potencia mente carregada de emocio. Como Livan com QUESTOES DE COSMOVISAO? Antes de tudo, devemos ter em mente que nem toda pergunta é feita com sinceridade. Porém, devemos procurar responder ao que parece uma pergunta insincera da maneira mais amivel e verdadeira. Podemos nfo vencer 0 propo- nente da pergunta, mas podemos influenciar os que esto em torno esperando a nossa resposta. E aleamente improvavel, por exemplo, que um professor dian- te de uma classe seja convencido da verdade do cristianismo nessa situagao. Contudo, Deus pode usar essa situagao para influenciar a mente de outros ahunos. O principio essencial que queremos ensinar acerca de fazer. 0 tipo certo, de pergune respeito i mudanga do foco da discussio de uma questéo particular para um principio geral da verdade que subjaz ao assunto em ques- ‘tao, Consideramos isso a chave mestra para desbloquear o didlogo. Uma vez de posse dessa chave, devemos ser capazes de abrir a mente de nossos ouvintes com a mudanga de uma simples pergun- ta! Sugerimos o emprego deste método em todas as situagdes em que for possivel. Contudo, 0 sucesso dele depende nao de fazer apenas algumas perguntas, mas de fazer as perguntas corretas. Mais uma vez imagine-se na aula de biologia que mencionamos antes. Agora, em ver de responder ao profess uma resposta, vejamos 0 que a contece vocé Ihe responder com a pergunta certa. Maing sense out of suffering, p. 2 62 FUNDAMENTOS INABALAVEIS Seu professor perguntou-lh “Como voce consegue acreditar na Biblia se cla contradiz tudo 6 que conhecemos da ciéncia? Por exemplo, a ciéncia de- monstrou que ¢ impossivel ocorrer milagres. Apesar disso vocé prefere cret nos milagres registrados na Biblia a acreditar na ciéncia, Por qué2”. Vamos supor que a esta altura do semestre voce jé descobriu que seu professor é um natura- lista — cré que fora da natureza nao existe nada. Como voce espera que ele venha a crer na Palavra de Deus se Deus nao existe? Da mesma maneira, como pode um naturalista acreditar em milagres, ou atos de Deus, se nao ha Deus nenhum que possa agir? Dizer-Lhe os motivos por que vocé cré que a Biblia é verdadeira — porque ela é a Palavra de Deus — pode servir apenas para isolé- lo dele ¢ do resto da classe. Aonde vocé pode ir daqui para frente? Acesta altura nao existe solo comum entre o seu professor € voce. Por isso, € hora de fazer a pergunta correta para mudar a discussao desse assunto especifi- co (a credibilidade da Biblia e dos milagres) para um principio geral de verda- de por detras dele. Isso expord a suposi¢ao escondida na pergunta do seu professor. Para fazer isso, voce precisa pensar em que o seu professor, como naturalista, cré ¢ encontrar um meio de lhe fazer uma pergunta que ponha vocés dois num territério compartilhado. Visto que a Igica é uma drea fundamental, em que hé base comum, suge- rimos que voce utilize um dos primeiros principios da ldgica, como a lei da nao-contradigéo (LNC), por exemplo, para formular a pergunta certa. O profes- sor fez uma afirmagao muito confiante ¢ crucial quando disse: “Milagres sao impossiveis”. Vocé pode observar, contudo, que ele nunca the deu uma defini- gio de milagre. Logo, para comecar certifique-se de que vocé ¢ seu professor concordam na definigéo dos termos importantes que voces vio empregar. Pega- Ihe para definir 0 que quer dizer com milagre. Muito provavelmente ele res ponderd algo como isto: “Milagre é um acontecimento na natureza causado por algo que esta fora dela”, Uma vex que cré que nao existe nada além da natureza, ele é foreado a concluir que os milagres so impossiveis.® Vocé acabou de detectar a suposicao dele: ele cré que nao existe nada fora da natureza e que a ciéncia demonstrou isso. Além do mais, como naturalista, ele acredita que a ciéncia se preocupa apenas com a natuteza e, por isso, esté restri- ta as causas naturais dos eventos da natureza. Seu professor, portanto, definiu a nao existéncia de milagres, mas nao com o emprego do método cientifico, mas com Para uona anilise filos6fica mais aprofundada desse t6pico, consulte Minacles and modern though de Norman L. Geisler, ¢ Milagres, de C As cosmovisdes 63 uma hipétese filoséfica. Como pode a ciéncia provar que algo nao existe fora da natureza se, segundo seu professor, a ciéncia nao pode ir além da natureza? Hé alguma coisa errada ai! Seu professor esté aplicando a disciplina académica errada a essa questo sobre milagres. C. S. Lewis explicou como a ciéncia nao pode provar a falsidade do miraculoso: [O] método cientifico meramente mostra (0 que ninguém que eu conheca jamais negou) que se os milagres de fato ocorreram, a ciéncia, como cién- cia, nao pode provar, nem negar, a ocorréncia deles. Aquilo em que nao se pode confiar para recorrer nao ¢ assunto para a ciéncia: é por isso que a Histéria nao é considerada ciéncia. Nao se pode constatar 0 que Napoledo fez na batalha de Austerlitz pedindo-lhe que venha e realize outra vez a bata- Iha num laboratério com os mesmos combatentes, no mesmo campo de batalha, com as mesmas condicées climédticas e na mesma época. preciso ir aos registros. Com efeito, nao provamos que a ciéncia exclui os milagres: provamos apenas que a questao dos milagres, como intimeras outras, exclui © tratamento laboratorial? Seu professor nao somente foi nao-cientifico quando afirmou que milagres so impossiveis, mas também cometeu uma faldcia Igica chamada assumir veracidade para néo discutir. Comete-se essa faldcia quando se discute num cft- culo, Lewis assinalou que se alguém afirma que é impossivel ocorrer milagres, esse alguém precisa ter conhecimento de que todos os relatos de milagres so falsos. Todavia, tinico jeito de saber se todos os relatos de milagres sao falsos é saber de antemio que jamais ocorreu nenhum milagre de fato, porque isso é impossivel."° A tnica safda a esse raciocinio ci reular é estar aberto a possibili- dade de que os milagres ocorreram de fato. Pensando nisso, vocé também pode considerar a possibilidade de pedir a seu professor que defina o termo natural, embora ele nao tenha utilizado essa palavra na pergunta que Ihe fez. Vamos aplicar a definigio de Lewis e ver aonde ela nos leva. Se 0 “nacural” significa aquilo que pode ser enquadrado numa classe, obede- ce a uma norma, pode ter paralelo, pode ser explicado por referéncia a outros eventos, entéo a prépria natureza como um todo nfo é natural. Se milagre significa aquilo que simplesmente precisa ser aceito, a realidade °God in the dock , p. 134 "Milagres, p. 96. 64 FUNDAMENTOS INABALAVEIS irrespondivel que nao da explicagéo de si, mas simplesmente existe, entdo 0 universo € um grande milagre"! A tinica coisa que o seu professor cré que existe é 0 universo, ¢ ento, por definico, vem a ser o maior milagre de todos. Nao estamos querendo dizer que cle vai concordar com voce. Estamos demonstrando como lidar com esse tipo de problema. Pedir esclarecimento leva a pergunta original do seu professor de volta a um principio comum em que vocé pode conseguir construir pontes da verdade para a visao de mundo crista. Vocé pode partilhar com seu professor que sc ele concorda com a definigo exposta sobre milagre ¢ natural, vocés tem uma convicgo comum. De fato, mais tarde vocé pode justificar como a Biblia estd em harmonia com o método cientifico, porque ela € coerente com o prin- c{pio da causalidade. Em Génesis 1.1, a Biblia declara que Deus ¢ a Causa nao- causada do universo finito.'? Esperamos que esse roteiro que acabarnos de propor tenha ajudado a de- monstrar quanto pode ser titil para orientar a diregao de uma discussao fazer 0 tipo certo de pergunta. Nosso objetivo é transferir 0 nus da prova de nés para 08 que nos questionam. Pedindo esclarecimento e usando a LNC, podemos pedir aos nossos indagadores que definam seus termos, 0 que por sua vez. pode obrigé-los a refletir sobre suas suposigdes. Conforme se assinalou acima, procu- rar a definigado dos termos milagre ¢ natural ¢ sondar até que as suposigdes fossem expostas mostrou que esse professor ou raciocinava em circulo, ou acei- tava o maior de todos os milagres — 0 universo. Esse método ¢ esse processo de raciocinio podem ou nao influenciar um professor de faculdade, mas pode por certo fazer diferenga no modo que os outros ouvintes vao perceber aquilo em que cremos. Pode ser uma ferramenta muito poderosa, mas nao espere ser ca- paz de dominé-la num periodo curto de tempo, vai ser necessdtio pratica e perspicécia para usé-la eficazmente em situagées da vida real. De novo, 0 suce so dele depende nao meramente de fazer perguntas quaisquer, mas de fazer as perguntas certas, Como FORAULAR AS PERGUNTAS CERTAS? Fazer as perguntas certas depende de nossa capacidade de conhecer ¢ utilizar com propriedade os preceitos gerais (os primeiros princfpios) relacionados ao "God in the Dock, p. 36. *O principio da causalidade, no que se refere 4 origem do universo, é examinado mais aprofundadamente no cap. 4. As cosmovisdes 65 problema especifico que se esté discutindo. Lembre-se de que quando as cren- Gas se tornam convicgées, 0 aspecto pessoal introduz um didlogo em que as emogées podem-se aprofundar muito! A pergunta correta pode trazer a conver sa de volta & base comum, um primeiro principio, sobre a qual hd mais proba- bilidade de ocorrer uma discussao sadia. Com isso em mente, estamos chamando as perguntas corretas de perguntas de principio. Uma pergunta de principio pode catapultar uma conversa do nivel emoci- onal ¢ subjetivo para o nivel racional e objetivo. Questionar principios em vez de crengas pessoais a fim de comprometer as pessoas com | Questione a idéi ap nao a postuira conceitos, ¢ no com convicgdes faz diferenga! Lembre-se: nosso primeiro objetivo é trabalhar a : Conceitual partir de suposig6es compart — Bie. = thadas. Devemos nos esforcar pi CED para encontrar o principio pri-- | Qp] ~~ ta meiro relacionado a questao em paura. Vamos procurar ilustrar Be, ee sso] © que queremos dizer empre- ei gando essa técnica a uma ques- tao conhecida a respeito da capacidade de Deus criar uma pedra maior do que ele pos carregar. Volte novamente a sua escola imagindria. Agora vocé vai encontrar um alu- no chamado Tom que estd irtitado porque nao se conforma com sua crenga aparentemente absurda em Deus. Ele mal pode esperar a oportunidade de o constranger na frente de outros alunos interessados em ouvir mais a respeito de sua fé. Um dia, enquanto vocé almoga com alguns daqueles alunos receptivos, Tom decide sentar-se & sua mesa e dizer: — Vocé se importa se eu lhe fizer algumas perguntas? Vocé reage dizendo que as perguntas dele sio bem: ‘Tom entao pergunta: — Jesus nao disse em Mateus 19.26 que ‘para Deus todas as coisas sao indas. possiveis?” — Sim — vocé responde, ‘Tom continua — Vocé acredita que Deus ¢ todo-poderoso ¢ pode fazer tudo? 66 Funoamenios imagativers Novamente sua resposta ¢ positiva. ‘Tom imagina que o tao esperado momento esté chegando e, com um risinho sarcastico, pergunta: — Certo. Deus pode criar uma rocha tao grande que ele proprio nao possa levantd-la? Vocé avalia a pergunta por um instante ¢ pensa com vocé: “Se eu responder ‘sim’, estarei admitindo que Deus € poderoso bastante para criar a pedra, mas nao o suficiente para mové-la! Porém, se disser ‘nao’, estarei admitindo que Deus no é todo-poderoso, porque nao pode criar uma pedra de tal magnitude”, Pare- ce que qualquer uma das respostas vai forcé-lo a violar a LNC ¢ contradizer sua concepgao de Deus, definida como um Ser todo-poderoso. Parece também que ‘Tom estd usando os primeiros princfpios para desacreditar vocé ¢ sua concepgao de Deus. E verdade que Tom esté falando corretamente do poder de Deus, mas estaria ele empregando os primeiros princ{pios corretamente? Antes de examinarmos as perguntas de Tom, lembre-se de que agora ndo é hora de apelar part a ignorancia dizendo a’Tom que ele esté querendo usar 0 raciocinio humano e que hé coisas que néo podemos compreender a respeito de Deus. Nem tampouco deve dizer que de algum modo Deus esté isento dessa questo. Isto apenas daria a Tom mais combustivel emocional para pen- sar em outros assuntos escolhidos para levantar com vocé ¢ atingir o objetivo dele de desacreditar sua fé na frente dos outros colegas. Em vez disso, vocé deve concentrat-se nessa questo € pensar numa pergunta sobre principio que des- vie a conversa de uma base emocional instavel para um solo conceitual firme. Vamos retomar a pergunta de Tom ¢ aplicar a cla o que aprendemos com 0 uso correto da LNC. Tom quer que Deus crie uma pedra tio grande que 0 proprio Deus nao a possa erguer. O que Tom na verdade esté pedindo para Deus fazer? Para saber, precisamos definir ¢ esclarecer 0 emprego das palavras de Tom. A primeira pergunta que vem a mente é: “De que tamanho éa pedra que ‘fom quer que Deus crie?”. Bem, Tom quer que Deus crie uma pedra t4o grande que seria impossivel ao préprio Deus mové-la. Ora, que tamanho uma pedra poderia ter para que Deus nao fosse capaz de mové-la? Qual é a maior entidade fisica que existe? Obviamente, a maior entidade fisica é 0 universo, ¢ independentemente de quanto se expanda, 0 universo serd sempre limitado, uma realidade fisica finita — uma realidade que Deus pode “carregar”. Mesmo se Deus criasse uma pedra do tamanho de um universo em expansio constan- te, Deus ainda seria capaz de ergué-la ¢ controlé-la. A tinica opgao légica € Deus criar algo que exceda o seu poder de carregar ¢ de controlar. Mas, uma AS cosmovisbes 67 ver que o poder de Deus ¢ infinito, ele teria de criar uma rocha de proporgées infinitas! Esta éa chave: Tom quer que Deus crie uma pedra, ¢ uma pedra é um objeto fisico, finito. Como pode Deus criar um objeto que ¢ finito por natureza e dar a cle um tamanho infinito? Hé alguma coisa terrivelmente errada na pergunta de Tom. Entéo vamos aplicar corretamente aU > para analisé-la. E légica e concretamente impossivel criar uma coisa finita fisicamente ¢ fazer que ela seja infinitamente grande! Por definigdo, uma coisa infinita, ndo- criada nao tem limites, e uma coisa finita, criada tem. Conseqiientemente, ‘Tom acabou de perguntar se Deus pode criar uma pedra infinitamente finita, isto é, uma pedra que tem limites ¢, a0 mesmo tempo ¢ no mesmo sentido, nio tem limites. A pergunta dele, portanto, viola a LNC ¢ vem a ser absurda. Tom achava que estava fazendo uma pergunta muito importante, que poria o cristo num grande dilema. Em vez disso, ele apenas conseguiu mostrar a prépria incapacidade de pensar com clareza. Agora que temos entendimento claro da pergunta de Tom, é sé uma ques- tao de formular uma pergunta de princfpio a fim de que o erro dele se revele. Que tal est: voce me disser o tamanho dela, eu Ihe direi se ele pode crid-la”. Bem, podemos continuar perguntando até que as respostas se aproximem do tamanho do uni- verso ¢ finalmente introduzam a idéia da infinitude. Uma vez que Tom chegue : “Tom, qual é 0 tamanho da pedra que vocé quer que Deus crie? Se a0 ponto em que comece a enxergar o que esté realmente pedindo para Deus fazer — criar uma pedra infinita —, € necessdrio mostrar-Ihe que est4 pedindo que Deus faca algo logicamente irrelevante ¢ impossivel. Deus nao pode criar uma pedra infinitamente finita assim como nao pode criar um cfrculo quadra- do. Ambos so exemplos de impossibilidades intrtnsecas, Comentando sobre a impossibilidade intrinseca e um Deus todo-poderoso, C. 8. Lewis disse: E impossivel [o intrinsecamente impossivel] em todas as condigées ¢ em todos os mundos ¢ para todos os agentes, “Todos os agentes” aqui incluem o proprio Deus. Sua onipoténcia significa poder para fazer tudo o que é in- trinsecamente possivel, nao para fazer o intrinsecamente impossivel. Pode- se atribuir milagres a cle, mas no, absurdos."3 Nem toda pergunta que se faz ¢ automaticamente significativa apenas por ser uma pergunta. A pergunta pode parecer significativa, mas devemos testé-la com os primeiros princfpios para verificar se é valida. Seja cuidadoso, portanto, "The problem of pain, p. 28. 68 FUNDAMENTOS INABALAVEIS no apressado demais, para responder as perguntas. Vocé pode ficar completa- mente enrolado ao tentar encontrar uma resposta irrefutdvel @ pergunta que nao possui relevancia légica. Lembre-se do que disse Peter Kreeft: “Nao ha nada mais sem sentido que a resposta a uma pergunta nao plenamente enten- dida’. Faremos bem em prestar atengdo nesta adverténcia e utilizar 0 nosso entendimento dos primeiros princ{pios antes de dar nossa resposta. Apresentamos os principios légicos, como a LNC, por exemplo, aos quais sempre se pode recorrer em situagGes como a que se apresentou anteriormente. Para ser eficaz, € preciso praticar essa metodologia ¢ combiné-la com sélida compreensio da LNC até que se torne um habito firmemente enraizado. Ques- tionar as suposigdes ¢ empregar a NC a fim de detectar 0 erro € essencial para manter um didlogo que caminhe em diregio a verdade. No final do capitulo sobre légica assinalamos que a fungao primdria da Idgica é corrigir o pensamento incorreto, ou o raciocinio infundado, ¢, por- tanto, um teste negativo da verdade. Também dissemos que 0 propésito deste livro é que o entendimento cumulativo aqui apresentado e a aplica- 40 dos primeiros principios fundamentais dos diversos campos do conhe- cimento nos ajudem a descobrir que cosmoviséo é mais razodvel ou verdadeira. Como jé demons- tramos, e como a tabela ao lado Ateismo | Pantetsmo | Teismo ilustra, as cosmovisdes nao po- Relativa. | Relativaaeste| Existea dem ser todas verdadeiras. erdade|_ Nao ha mundo — | verdade ae : absolutos absoluta Depois, é questao de encon- trar respostas As perguntas que [Universo] Sempre evistu] Nao é real, | Realidade mas, ilusao | criada fazem sentido dentro dos Deus | Naoexisio | Existe, mas é | Existe, 06 pardimetros dessa cosmovisio ese incognoscivel rognosctvel ajustam com mais coeréncia Relativo, Relativo a este} Absoluio, deierminado | mundo | objetivo e pela reveladlo humanidade quilo que conhecemos com nos- sa experiéncia de vida. Uma vez que muitas pessoas créem que apenas que € cientificamente | mat | 'gnemincia | Nao éveni, | Coracio es A : humana | mas, ilusda. | egorsta verificdvel é verdadeiro, comece- : ee Criada pela | Relativa, | Absoluta, mos com a disciplina da ciéncia bene Aumanidade. | transcende a | objetiva, — o assunto de nosso préximo Situacional | bem eo mal { prescritiva capitulo, CapiTULO QUATRO A cléNcia As coisas melhores de conhecer séo os primeivos principios ¢ as causas. Pois deles e por meio deles podem-se conhecer todas as outras coisas. —ARISTOTELES Ciencia & Questéo be Fé?! Muitos acreditam que sé o que ¢ cientificamente verificével é verdadeiro. Infe- lizmente, nenhum experimento cientifico pode averiguar essa assergo, pois é uma declaragio de natureza filasdfica, no cientifica. Além disso, a ciéncia se . Ao contrério, pressupde-se que a ldgica é um componente vilido do método cien- baseia na légica, ¢ nenhum experimento cientifico pode verificar a légic tifico. Logo, antes de aplicar 0 método cientifico, precisamos entender o fun- damento sobre 0 qual a disciplina da ciéncia repousa. A palavra ciéncia literalmente significa “conhecimento”. Origina-se do ver- bo latino scio (“saber”*). Entretanto, a ciéncia pressupée uma certa ordem Interdependente de conhecimento, ¢ ignorar essa ordem ou abusar dela pode evar a inferéncias ¢ conclusdes altamente questionaveis no que se refere & reali- dade. Precisamos ter consciéncia de que a disciplina ciéncia baseia-se em certos primeiros principios e hipdteses estabelecidos na filosofia. Essas hipoteses (ou pres- "A resposta.a essa pergunta foi inicialmente apresentada num artigo de Peter Bochino, inticulado Keep the faith. O antigo aparecia com 0 nome just thinking num comunicado da primavera de 1996, distribuido por Ravi Zacharias International Ministries * Scio (scire), em latim classico, significa saber. O verbo “saber” do portugues deriva de sapere, “ter sabor” (N. da E). 70 — Funoamenros inagacavels supostos) séo de natureza metafisicas® ¢ tém prioridade sobre toda investiga- ¢4o cientifica. Um fildsofo da ciéncia resume: A filosofia funciona como o cimento armado da ciéncia fornecendo-the suas pressuposig6 A ciéncia (pelo menos como a maioria dos cientistas ¢ filé- sofos a entende) presume que o universo € inteligivel, ¢ nao caprichoso, que a mente € 0s sentidos nos informam acerca da realidade, que a matematica © a linguagem podem ser aplicadas ao mundo, que o conhecimento € possi- vel e que ha uma uniformidade na natureza que justifica as inferéncias indutivas do pasado sobre 0 futuro ¢ dos casos examinados, como o dos elétrons, por exemplo, sobre 0s casos nao-examinados, ¢ assim por diante [...] Todas essas pressuposigées sao filos6ficas por nacureza? Qual é a justificativa légica para essas suposigdes metafisicas da ciéncia? Os nossos pensamentos sio meramente um produto de reagSes quimicas do cére- bro? Se a razdo ¢ a légica so em tiltima andlise redutiveis a puras reagbes qui- micas, como decidir entre a légica boa ¢ a ma? Que suposigées sio razodveis ¢ quais nao sao? G. K. Chesterton observou que sem alguma base para raciocinar, 6 processo de raciocinio seria um mero ato de fé: E um ato de fé asseverar que os nossos pensamentos tém alguma relagio com a realidade. Se vocé simplesmente € cético, deve, mais cedo ou mais tarde, fazer-se a seguinte pergunta: “Por que wma coisa esté certa; a observa- cao ¢ a dedugio? Por que a boa légica nao pode ser tao enganosa quanto a ma légica? Ambas so movimentos no cérebro de um chimpanzé confuso”.# JA confirmamos que os primeiros princfpios séo verdadeiros por auto-evi- déncia. Estéo além de toda prova direta. Os primeiros principios nao precisam de mais justificagdes; se precisassem, 0 proceso de justificacao teria de conti- nuar indefinidamente. Conseqiientemente, devemos voltar a algum ponto de partida como base para a propria razio. Se nao, acabaremos tentando justificar toda justificativa e explicar toda explicagéo. C. S. Lewis nos dé uma ilustragao clara do absurdo dessa tarefa: Nao se pode con uar “explicando” indefinidamente: acaba-se descobrindo que se explicou a prépria explicacio. Nao se pode continuar “enxergando 20 adjetivo “merafisico” vem de uma palavra grega que significa “além da fisica”. A metafisica rata daquilo que € real, do que existe. J.P. MontLaNn, Christianity and the nature of xience, p. 45. ‘Orthodoxy, p. 33. Publicado em portugués com o titulo Ortodoxia. Acencia 71 através” das coisas para sempre. O problema todo de ver através de uma coisa € ver uma coisa através dela. E bom que a janela seja transparente, porque a rua ow 0 jardim do outro lado € opaca. E se se enxergasse através do jardim também? Nao adianta tentar “enxergar através” dos primeiros principios. Se se enxerga através de tudo, entéo tudo € transparente. Mas um mundo transparente € um mundo invisivel. “Enxergar através” de todas as coisas € 0 mesmo que nfo enxergar nada? Em ultima anilise, 0s primeiros princfpios do pensamento sé tém justifica- tiva racional se houver uma Mente que forneca a base para a existéncia deles. Como tao habilmente afirma Lewis: razao de alguém foi levada a ver coisas com a ajuda da de outro, e néo A de als foi levad: da da de out perdeu nada com isso. Continua entao em aberto a questdo se a razdo de cada individuo existe absolutamente de si mesma ou resulta de alguma causa {racional) — isto é, de alguma outra razéo. Essa outra razio poderia prova- velmente depender de uma terceira, e assim por diante. Nao importa até que ponto este processo continuasse desde que vocé descobrisse a razdo originando-se na r 40 a cada estégio. Somente quando somos solicitados a crer na razio surgida da néo-razdo é que devemos fazer uma pausa, pois, se nao fizermos isso, todo pensamento ser4 posto em diivida. Fica portanto evidenciado que mais cedo ou mais tarde vocé deve admitir uma raza que exista absolutamente de si mesma, O problema esté em vocé ou eu poder- mos ser uma tal razio auto-existente.® O proprio fato de que a légica pode ser vilida ou invélida pressupde um padréo de légica que vai além do pensamento humano. Conseqiientemente, para que a ciéncia seja sélida, ela deve manter a fé que tem na razdo, ¢0 raciocinio correto logicamente depende da existéncia de uma entidade pensante (Deus). Por- tanto, essa entidade necessariamente deve ser a causa primdvia ou base racional para todos os primeiros princ{pios, entre eles as hipéteses cientificas. Uma vez que a pesquisa cientifica nao é isolada das hipéteses filosficas, é preciso exami- nar essas hipéteses para verificar se sio vilidas. O princ{pio primeiro da ciéncia é um pressuposto filoséfico sobre 0 qual a disciplina ciéncia repousa: é conhe- cido por principio da cansalidade. SThe abolition of man, p. 91 SMilagres, p. 27. 72° FUNDAMENTOS iNaBALavels O Que € 0 PRINCIPIO DA CAUSALIDADE? O princfpio da causalidade afirma que todo evento tem uma causa adequada. no as Esse principio é firmemente acoplado com a busca de explicages ¢, mes coisas simples que observamos, como as cores do arco-itis, por exemplo, devem ter uma causa. Logo, quando queremos explicagio para o aparecimento do arco-itis, estamos na verdade procurando a causa dele. Além disso, quando procuramos a causa de um evento, hd alguns tipos de causas que podem set isoladas. Na ilustracio podemos observar dois tipos de causas: uma causa secundéria (ou instrumental) ¢ a causa priméria (eficiente). Isaac Newton foi o primeiro a usar um prisma para revelar que a luz solar pode-se dividir ¢, com isso, produzir um espectro de cores. O espectro de cores que emana do prisma ¢ 0 efeito que observamos da luz, passando através dele. O efeito — o espectro de cores — tem uma causa secundéria (instrumental), 0 prisma. Contudo, também tem uma causa priméria (primeira), a luz solar. A cor é inerente a luz solar (causa primé- ria), 0 prisma é a causa instrumental (causa se- cundéria) pela qual a luz se dispersa. Tecnicamente, ° entretanto, o sol é causa- do ¢, portanto, precedido iticnte de energia, de modo que a questio tltima a ser res- pondida é: “O suprimen- to de energia do universo é infinito ¢, portanto, sem- pre existiu, ou ¢ finito ¢ por isso certamente teve um comeco?” Em outras palavras, “A energia é a causa primeira de todo 0 universo, ou hé uma causa anterior a ela?”. Antes de empregar 0 principio da causalidade para responder a essa per- gunta, precisamos verificar sua credibilidade, visto que é 0 primeiro princ{pio da ciéncia. Devemos nos recordar também de que o principio da causalidade é filoséfico por natureza e, como tal, afirma que para todo efeito deve haver uma condigao necessdria e suficiente. Os efeitos nao ocorrem sem causas. -Isso vale para tudo o que é finito e vem a existéncia, até o universo. Q pai : na, Francis Bacon (1561-1626), disse: “O verdadeiro conhecimento € 0 co-

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